- Relacionado aos artigos sobre damas e donzelas.
Veja mais sobre isso em: Donzela em Perigo(!).
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Não venho tratar sobre as obras literárias de Tracy Chevalier (“The Lady and the Unicorn”), nem de Kelly Jones (“The Seventh Unicorn”), mas sim do conjunto de seis tapeçarias medievais La Dame à la licorne, datadas do século XV e armazenadas no Musée National du Moyen Âge, em Cluny.
Uma tapeçaria é uma realização têxtil decorativa. Ela tem a vantagem de embelezar e esquentar os aposentos (uma forma inteligente de vantagem em uma Europa Fria).
“Mas olhar uma tapeçaria não é a mesma coisa que olhar um quadro. Um quadro costuma ser menor, de modo que os olhos captam tudo de uma só vez. E a pessoa não fica muito perto, mas a dois passos de distância, como se estivesse com um padre ou um professor. Ficamos perto da tapeçaria como se ela fosse um amigo. Você só vê uma parte dela, nem sempre a mais importante. Por isso nada deve destacar do resto, mas combinar de forma que os olhos sintam prazer em qualquer ponto dela.” (A Dama e o Unicórnio, página 107 – Tracy Chevalier).
Na Idade Média, elas eram elegantemente objetos de ostentação, dispostas em grandes casas ou na ocasião de cerimônias públicas. As tapeçarias foram de um papel importante nas imagens religiosas: em Arras se reunia um conselho que decidia o desenvolvimento de imagens, decoração, a fim de cultivar o povo iletrado na religião e na política. Sabe-se que Paris tinha uma posição importante na produção, a primeira região produtora era o Nordeste da Europa, particularmente Flandres e os Países Baixos.
Enfim, a arte da tapeçaria era também acoplada à pintura que era realizada aos cartões preparatórios. Foi um aspecto essencial na história da arte na Idade Média.

As tapeçarias da Dama e do Unicórnio foram feitas em Flandres, entre 1484 e 1500. Eles foram encomendadas por Jean La Viste (comprovado pelos brasões que foi a família La Viste e que apenas o chefe poderia ter encomendado), presidente da Cours de Aides de Lyon.
Nas tapeçarias, a Dama seduz o Unicórnio. Cada peça do bosque mostra uma parte do processo, numa ela provoca-o com música (toca o órgão), noutra o tenta com comidas e flores, até que ele vem repousar sua cabeça em seu colo e ela o domina, transformando-o em escravo do amor (possivelmente o levando para ser abatido na caça). Subjetivamente as tapeçarias não tratam apenas da sedução na floresta, mas tratam do ciclo da vida de uma mulher, do começo ao fim.
Elas começam com a Dama colocando o colar e se percorre a sala acompanhando-a na sedução do unicórnio. Ou se pode ir pelo outro lado, com a Dama dando adeus a cada sentido e terminando com a Dama tirando o colar – se afastando do mundo material. Dessa maneira não se sabe se a Dama está tirando ou colocando o colar. As tapeçarias não são só sobre a sedução, mas sobre a alma também.
Como dito, a tapeçaria começa com a cena “À mon seul désir”, a que tem a mais difícil significação e não se sabe se ela conclui ou inicia. A reputação da tapeçaria da Dama e o Unicórnio se deve, em muita parte, pela harmonia e sua gama colorida, e nessa peça é decorada maravilhosamente a elegância da jovem mulher. O esplendor e a preciosidade das jóias contribuem para a beleza da obra.

Se seguirmos na ordem inicial, a próxima tapeçaria é a da audição, “L’Ouïe” , representada pela Dama que toca o órgão. Nessa cena o leão e o unicórnio se enquadram e aparecem como motivos decorativos.

Em seguida, vem-se a cena do olfato, “L’Odorat”, na qual a Dama trance uma coroa de flores (usualmente esse coroa de cravos representava o símbolo do casamento). Atrás dela, percebe-se a alegoria feita com um macaco que está prestes a respirar uma rosa que desabrochou no painel.

Na cena seguinte, observa-se a peça do paladar, “Le Goût”. O leão e o unicórnio enquadram a Dama, que alimenta o periquito em sua mão. Seu pequeno cachorro segue atentivamente seus gestos e o unicórnio já está quase seduzido, se impõe na direção da Dama, mas não ousa olhá-la diretamente.

Segue-se à cena da visão, “La Vue”, na qual, em uma atitude familiar, o unicórnio põe a cabeça sob o colo da Dama e se contempla no espelho que ela segura. A sedução foi feita.

Finalmente, encontra-se a peça do tato, “Le Toucher”, em que a Dama, soberbamente, carrega um estandarte numa das mãos e o chifre do unicórnio na outra. Ela venceu no jogo do amor.

O que quero retratar e mostrar nessas tapeçarias e a sensibilidade à natureza das mulheres, a sua dimensão psicológica, suas intenções – é o que justifica a interpretação feminina da obra.
Trata-se de um fio condutor, que faz a linha entre todas essas mulheres e nos mostra um reflexo de desejo, de sentimento, de pensamento, de um segredo capturado pela pintura e fisgado aos olhos do espectador.









































