Posts de setembro \29\UTC 2009

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A Dama e o Unicórnio

09/29/2009

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Não venho tratar sobre as obras literárias de Tracy Chevalier (“The Lady and the Unicorn”), nem de Kelly Jones (“The Seventh Unicorn”), mas sim do conjunto de seis tapeçarias medievais La Dame à la licorne, datadas do século XV e armazenadas no Musée National du Moyen Âge, em Cluny.

Uma tapeçaria é uma realização têxtil decorativa. Ela tem a vantagem de embelezar e esquentar os aposentos (uma forma inteligente de vantagem em uma Europa Fria).

“Mas olhar uma tapeçaria não é a mesma coisa que olhar um quadro. Um quadro costuma ser menor, de modo que os olhos captam tudo de uma só vez. E a pessoa não fica muito perto, mas a dois passos de distância, como se estivesse com um padre ou um professor. Ficamos perto da tapeçaria como se ela fosse um amigo. Você só vê uma parte dela, nem sempre a mais importante. Por isso nada deve destacar do resto, mas combinar de forma que os olhos sintam prazer em qualquer ponto dela.” (A Dama e o Unicórnio, página 107 – Tracy Chevalier).

Na Idade Média, elas eram elegantemente objetos de ostentação, dispostas em grandes casas ou na ocasião de cerimônias públicas. As tapeçarias foram de um papel importante nas imagens religiosas: em Arras se reunia um conselho que decidia o desenvolvimento de imagens, decoração, a fim de cultivar o povo iletrado na religião e na política. Sabe-se que Paris tinha uma posição importante na produção, a primeira região produtora era o Nordeste da Europa, particularmente Flandres e os Países Baixos.

Enfim, a arte da tapeçaria era também acoplada à pintura que era realizada aos cartões preparatórios. Foi um aspecto essencial na história da arte na Idade Média.

Tapisserie Beaune

As tapeçarias da Dama e do Unicórnio foram feitas em Flandres, entre 1484 e 1500. Eles foram encomendadas por Jean La Viste (comprovado pelos brasões que foi a família La Viste e que apenas o chefe poderia ter encomendado), presidente da Cours de Aides de Lyon.

Nas tapeçarias, a Dama seduz o Unicórnio. Cada peça do bosque mostra uma parte do processo, numa ela provoca-o com música (toca o órgão), noutra o tenta com comidas e flores, até que ele vem repousar sua cabeça em seu colo e ela o domina, transformando-o em escravo do amor (possivelmente o levando para ser abatido na caça). Subjetivamente as tapeçarias não tratam apenas da sedução na floresta, mas tratam do ciclo da vida de uma mulher, do começo ao fim.

Elas começam com a Dama colocando o colar e se percorre a sala acompanhando-a na sedução do unicórnio. Ou se pode ir pelo outro lado, com a Dama dando adeus a cada sentido e terminando com a Dama tirando o colar – se afastando do mundo material. Dessa maneira não se sabe se a Dama está tirando ou colocando o colar. As tapeçarias não são só sobre a sedução, mas sobre a alma também.

Como dito, a tapeçaria começa com a cena “À mon seul désir”, a que tem a mais difícil significação e não se sabe se ela conclui ou inicia. A reputação da tapeçaria da Dama e o Unicórnio se deve, em muita parte, pela harmonia e sua gama colorida, e nessa peça é decorada maravilhosamente a elegância da jovem mulher. O esplendor e a preciosidade das jóias contribuem para a beleza da obra.

“À mon seul désir”

Se seguirmos na ordem inicial, a próxima tapeçaria é a da audição, “L’Ouïe” , representada pela Dama que toca o órgão. Nessa cena o leão e o unicórnio se enquadram e aparecem como motivos decorativos.

"L'Ouïe"

Em seguida, vem-se a cena do olfato, “L’Odorat”,  na qual a Dama trance uma coroa de flores (usualmente esse coroa de cravos representava o símbolo do casamento). Atrás dela, percebe-se a alegoria feita com um macaco que está prestes a respirar uma rosa que desabrochou no painel.

"L'Odorat"

Na cena seguinte, observa-se a peça do paladar, “Le Goût”. O leão e o unicórnio enquadram a Dama, que alimenta o periquito em sua mão. Seu pequeno cachorro segue atentivamente seus gestos e o unicórnio já está quase seduzido, se impõe na direção da Dama, mas não ousa olhá-la diretamente.

"Le Goût"

Segue-se à cena da visão, “La Vue”, na qual, em uma atitude familiar, o unicórnio põe a cabeça sob o colo da Dama e se contempla no espelho que ela segura. A sedução foi feita.

"La Vue"

Finalmente, encontra-se a peça do tato, “Le Toucher”, em que a Dama, soberbamente, carrega um estandarte numa das mãos e o chifre do unicórnio na outra. Ela venceu no jogo do amor.

"Le Toucher"

O que quero retratar e mostrar nessas tapeçarias e a sensibilidade à natureza das mulheres, a sua dimensão psicológica, suas intenções – é o que justifica a interpretação feminina da obra.

Trata-se de um fio condutor, que faz a linha entre todas essas mulheres e nos mostra um reflexo de desejo, de sentimento, de pensamento, de um segredo capturado pela pintura e fisgado aos olhos do espectador.

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Gloom

09/27/2009
  • A final line to understand what we call “misery of spirit” .
    Read more about the beauty and the sadness in: Tristemente amar. *(if you understand portuguese, of course).

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Frozen.
Gloom

If I were to have a say in something
If I were to destroy all the sickness within
I would take your hand and runaway
Across the wild bloomy fields, where the sun is never over
I would wander beyond the icy places in my soul
Where forms and colors turn into evasive groanings

I read the lines of my hand – I see sad nods along sad waves
A white dove that flies and gives me farewell
While the walls of my head melt in a soothing light
I rest in silence, lied in the ground – a skyline
I stand on my feet, the ignorance hits my beat
Once and for all I lock the beast and unleash the beauty

The wind blew all my petals in dealf moment
A blazing second that withdrew and passed away
I tried to see through the snakes’ eyes
They coiled and hissed and refused to tell me
What glitters when I behold a mere glimpse of gold

If I could I’d make my life a silent movie
My  soundtrack, a single one piano playing at
A solemn room in half-light, my purpure nuances dancing
Alongside my heart that fades in hollow distance
I’d be that dark angel with broken wings among the valley of broken dreams
I’d silence my sad thoughts, those that got lost in the ways of loneliness
I take a picture of the moment and stay still
Like a statue that watches the empty history building the human path

I’m meant to wipe my gloomy tears, tragic irony
I cannot leave them while I write my simphony
Protecting myself from my own dark face, the unknown epitome
Maybe I should erase the memory of the cold contempt of staring
And bury the azure jewelry of my mind dragged in misery
And then leave for the sunny forests I’ve dreamed of long ago
And then finally, lay to rest.

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Dumay Isiro’s – all rights reserved ®

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Donzela em Perigo(!)

09/25/2009

A Donzela e seu Conto de Fadas

O tema da “Donzela em Perigo” é um dos temas mais utilizados em literatura, cinema, pintura e tantas outras formas de arte. Mas o que realmente significa ser uma “donzela em perigo”? Será que esse estereótipo carrega essa impressão pejorativa justamente ou virou apenas um alvo dos movimentos feministas?

Para começar, uma Donzela em Perigo significa uma moça jovem que é ameaçada, sacrificada ou perseguida. Geralmente é retratada como sendo indefesa e ingênua, necessitando de outros para resgatá-la.

Andromeda - by Paul Gustave Doré

Primeiramente (e sempre), recorramos à história. O exemplo, talvez mais antigo, é o mito de Andrômeda – cuja mãe ofendeu Poseidon e como conseqüência foi castigada com um monstro enviado. Após seu pai, o rei Cefeu da Etiópia, consultar o oráculo Ammom, Andrômeda é enviada ao sacrifício como única forma de salvação do reino. É nesse ponto que surge Perseu, que vinha da vitória contra a Medusa, e salva Andrômeda. A partir daí observa-se uma tendência a associação do caso “Princesa e Monstro” e “Donzela em Perigo”.

Enquanto a história segue seu caminho, vemos o aparecimento dos contos de “Uma Mil e Uma noites” com o exemplo da princesa de Sana’a, além de, claro, o tema de “donzela em perigo” ser amplamente utilizado nos escritos literários medievais, como vemos em “Orlando furioso” e as hagiografias de São Jorge. (Lembremos que um dos papéis do cavaleiro medieval era proteger as donzelas, como visto em Cavaleiros Medievais).

Saint Georges

Há também os casos dos contos de fadas originários de lendas medievais como Rapunzel, Branca de Neve e A Bela Adormecida. Mas há um porém, as lendas reais não foram representadas no jeito passivo de como estamos acostumados. O modo por qual conhecemos essa estórias são adaptações e remontagens de autores da Era Vitoriana, influenciados pela literatura gótica. As heroínas foram readaptadas para condições mais socialmente aceitáveis naquela época.

Ashputtel

Originalmente, essas lendas contavam com donzelas que trabalhavam ativamente para sua libertação – em “Rumpelstiltskin”, a personagem usa sua inteligência para driblar o duende que vinha tomar-lhe o filho; no conto da Bela e a Fera, Bela se sacrifica para salvar a vida de seu pai e é o agente que garante a redenção de Fera; na lenda germânica de Cinderella (“Aschenputtel”), ela não se conforma em não ser permitida a ir ao baile, mas encontra outra maneira de ir. O papel do príncipe nesses contos não é salvar a heroína do mal, mas providenciar os meios – se a heroína aceita – para assegurar seu futuro depois de enfrentar o mal, geralmente pelo casamento (e/ ou possibilidade de maternidade).

Rumpelstiltskin

De fato, a história dos contos de fada (aos quais foram associados às figuras de donzela em perigo, após o período vitoriano) envolve uma figura feminina central que está na puberdade como heroína. Esses contos representam a passagem da personagem à idade adulta através de seus confrontos com uma figura má, geralmente bruxa ou outra criatura, que tem a intenção de destruí-la. A personagem é jovem, virgem, trabalhadora e caridosa.

Beauty and the Beast

De acordo com a Jornada de Herói d e Joseph Campbell, a primeira etapa é onde o herói/heroína é levado do conhecido e familiar ao desconhecido pela figura má. É geralmente nessa etapa também, que a personagem conhece seu interesse amoroso. Essa passagem representa o primeiro passo de abandono da infância e entrada à fase adulta e à maturidade sexual. Os outros passos são: confrontação da figura má, vitória sobre o mal e – nos contos modernos – final feliz, o ponto em qual o papel da heroína (ser mãe, rainha ou ambos) é conquistado. (Veremos mais sobre contos de fadas em outro post – este é apenas introdução).

Ainda de acordo com o trabalho de Joseph Campbell, os heróis possuem uma estória na qual são quase destruídos. Ao sobreviver a essa quase-morte, o herói prova que possui qualidades especiais e emerge renascido para a vitória. Assim, a figura da “donzela”, mitologicamente e opostamente às críticas femininas, é a heroína que emerge como uma mulher forte e clama a vitória. Há, porém, uma diferença desse conceito para o herói e a heroína, já que a personagem que faz o resgate (a ajuda não-procurada) é invariavelmente masculina.

Perils of Pauline

Então, de acordo com essa teoria, há divergências entre os filmes seriados das décadas de 1910 até 1960, como “The Perils of Pauline”, “What Happened to Mary?”, “Shambleau”, os filmes da franquia de James Bond (o São Jorge Moderno), e os mais recentes retratos de heroínas fortes como ocorrido em “The Avengers”, “Buffy the Vampire Slayer”, “Star Wars” , “Alias”, etc. – que fazem uma concordância com a teoria campbelliana.

A Donzela em Perigo é, no fim das contas, a heroína em fase inicial. Ela transita de um estágio ao outro e recebe ajuda, o que não significa que seja dependente. Após sua vitória, ela consegue suas honrarias e devido lugar a sua condição de heroína.

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Rumpelstiltskin -2

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Tristemente amar.

09/22/2009

Sempre preferi os sorrisos tristes. Os olhos lúgubres. A expressão enuviada que suaviza enquanto o vento passa e leva consigo o tempo, o sentimento. O céu nublado, cristalizado e a epifania interior.

Que lindo amor sorrir convosco, simultâneo. Entretanto, a face da melancolia vos faz pensar e pensar é sentir, é reflexão contemplativa, é pensamento em si. Deixai-vos perder no olhar gélido, no andar macambúzio, na irrisória, irrisível, incompreensível solidão. Da postura calma, dos dedos longínquos e da expressão distante, assimétrica, refletida em oceano fingido. O triste é o outro conceito do belo. O caminho que vos leva às profundezas do turquesa, do azul índigo e do cinza-céu.

Deveis achar um pouco gótico e é na verdade um processo osmótico, a pigarrear palavras de sono calmo, comedido, entretido e congelado. Porque ao pensar faz-se sonhar, a sentir ardente e não somente, mas também exterior.

Sentir perdido, neste cômodo segregado, sentir sozinho, estupidamente sozinho. Apenas falta de felicidade. Não há motivos, são palavras niistas. É o que irrita, embaraça, até sufocar o fôlego, fazer pequeno e apático. Então perceber que a infelicidade virou contemplação da tragédia, emblemático resquício de prazer. Eis porque vos digo, se em minhas lágrimas não encontrais abrigo, fugirei. Embrenharei profundo em mim mesmo e nunca mais vereis os cristais salgados, aqueles que alagados, inundam minha face.

E finalmente virarei aquele que não sente. Aquele que olha para o nada, o real nada. O nada é pior que o triste. O nada é o final da decadência. É chegar a fim de túnel no escuro. Sem raios cinza, sem lágrimas a escorrer e sem olhares para afogar o lamento. Desperdiçando a saudade, a vaidade que o belo lúgubre ainda vos doa. E como ressoa os pesares dos dias que não se seguirão. E como magoa entregar o coração para o inesperado, o nada de emoções, o escuro das vidas, o abismo, poço sem fim.

Afundemos agora em lenta sensação. Sentir flutuar as lembranças, os brilhos que murcharam e só restaram, um souvenir, os lábios temerosos, indecisos entre o silêncio e o sorriso. O bendizer das águas violáceas, azuláceas, quando são todas fontes de um mesmo jardim. E por fim esperar com ânsia a flor, a semente vingativa que não se rendeu. Saber, oh sim, e tristemente amar. O suspiro ininterrupto que é melodia dos saudosos corações.

  • Escute a trilha sonora: Dario Marianelli, “Your hands are cold” – Pride and Prejudice Soundtrack (Youtube)
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Arquitetura Medieval

09/21/2009
  • Continuamos aqui nossa saga histórica, fechando  o período da Idade Média. Leia mais sobre ela em Moda Medieval e Cavaleiros Medievais.
    Aguardem as cenas dos próximos capítulos (históricos).

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Durante o começo do período medieval, vemos certo isolamento da Europa – uma Europa entregue a si mesma, desfazendo as influências dos povos orientais.

No século XI, os povos do Oeste e do Centro da Europa alinharam-se sob o estandarte da cristandade reformada, decididamente romana. Fez-se uma consciência comum, que a primeira cruzada (1095-1099) manifestou. O universo do conhecimento estava sob o símbolo da cruz e os monges estendiam a reforma até o material de suas igrejas e livros. Foi dessa demanda austera que nasceram, até meados do século XIII, tanto as igrejas orgulhosas como as ricas catedrais, mas também os castelos e palácios principescos. Obras de pedra, de madeira, de vidro, inovações musicais e litúrgicas, todas manifestavam essa consciência coletiva.

Os numerosos edifícios de pedra e tijolo construídos pelos romanos sobreviveram ao passar dos séculos e puderam servir de modelos a copiar, ou mesmo ser integrados noutros mais tardios. É evidente que as igrejas românicas obedeceram a demandas topográficas, litúrgicas, ideológicas, de culto e de peregrinação. Assim, as fachadas dessas igrejas estavam sujeitas a condições muito variáveis. Mas de modo geral, a fachada românica representava um limiar que separava o mundo profano do local sagrado. A porta da igreja românica convida o fiel a entrar no santuário, mas exprime simultaneamente um aviso ao convite. Ela acolhe aqueles que se purificam e repele os pecadores não arrependidos. A igreja da Alta Idade Média podia ser concebida como uma espécie de fortaleza sagrada, cercada e defendida pelos anjos contra as forças do Mal. Alguns movimentos e inovações na França, na Península Ibérica e na Itália, favoreceram a criação da fachada românica – rotas de peregrinação, Reconquistas e lendas épicas comuns.

Notre-Dame-la-Grande de Poitiers

Durante os séculos XI e XII, o castelo impôs a guerra o seu estilo e os seus meios: torres de assalto e de madeira com vários andares, máquinas de arremesso, a astúcia e audácia para mergulhar nos fossos, corrupção e traição, o grande fantasma da época!

Os primeiros (ou mais numerosos) castelos era construídos com terra e madeira. Comportavam uma mota defendida por um fosso e uma cerca, ou pátio, adjacente, protegido por um parapeito de terra igualmente cinturado por uma vala. Depois apareceram os castelos de forma circular e muitas vezes apresentava torres quadradas, era uma série de torreões, ditos românicos, quadrangulares.

Dover Castle

Como já visto aqui anteriormente, a Europa passa por sérias transformações no final da Idade Média, vejamos algumas delas mais detalhadamente.

Os países do Ocidente viviam havia séculos num frágil equilíbrio religioso e político. Os príncipes da Europa Oriental entregavam-se à tarefa de construir seus estados, a reconquista da Península Ibérica aos mulçumanos parecia inexorável, a competição iniciada em finais de século XI entre o imperador e o papa prosseguia nos ideais dos partidos das grandes cidades italianas e até mesmo em Roma. As sedes do verdadeiro poder deslocam-se para o Oeste da Europa, desestabilizando os eixos tradicionais da economia tradicional. A partir do início do século XIV, com o apoio manifesto dos eclesiásticos, as cidades usurpam o domínio religioso, imiscuem-se nas suas expressões monumentais.

É nessa reforma que a Igreja do Ocidente passa a não querer mais que a igreja, o templo religioso, seja uma cidadela fechada, mas o coração da cidade. Os esforços exigidos são tais que só sociedades em plena expansão econômica e politicamente estabilizadas podem erguer, a partir do século XII, a floresta de catedrais góticas, com a consciência nova de que a humanidade do Ocidente tinha entrado numa época de progresso irreversível.

Cathédrale de Reims

Notre-Dame de Paris

O ponto de partida da arquitetura e da escultura gótica é por volta do século XII, restringido ao Norte da França. A Inglaterra se adapta rapidamente as novas formas, enquanto o Sul da França, a Península Ibérica e a Itália só as acolhem muito mais tarde. Ocorre uma fusão de instigação nascida nas cortes, locais de poder, onde o luxo em si é um sinal de eminência, onde a magnitude das igrejas é tão interesseira simbolicamente como materialmente gratuita.

Basilique de Saint-Denis

O plano da catedral gótica distingue-se pela sua clareza. Por toda parte compõe-se com naves e arcos, há a geometrização e uma multiplicidade de elementos compostos por círculos e arcos nos lavores de pedra em remates de vitrais, arcos e gabletes. Uma arte que se adapta às necessidades da igreja gótica é o vitral – composto por peças de vidro ou colorido na massa, reunidas numa rede de chumbo. O vitral era uma arte do fogo, de forte teor simbólico em complemento da iconografia que desenvolve as outras artes monumentais.

Vitral de Reims

Na pintura, destaca-se uma passagem mais sombria e emotiva que a do período anterior. A escultura recebe uma maior importância com a humanização das posturas e gestos, “domina uma atitude elegante, uma expressão realista, serena e profundamente terna que estabelece comunicação pelo olhar, pelo sorriso e pelo gesto”. A iluminura, por sua vez, volta a seu lugar de principal representação pictória.

Notre Dame - portail

Em relação aos castelos e fortalezas, há uma tendência a partir do século XIII da substituição pela torre cilíndrica e cinta de muralhas quadrangular, surge aí o novo castelo. É, porém, no último quarto do século XV que se anuncia uma verdadeira mutação na arte de construir e decorar fortalezas. Os castelos perdem sua soberba. Transformados em casernas, os castelos tendem a perder a função de residência aristocrática que sempre foram desde os anos mil. O enriquecimento da decoração esculpida nas fachadas e a multiplicação das aberturas anunciaram pouco a pouco o castelo de lazer que acabaria por impor-se. Os últimos castelos tiveram seu momento de glória com as guerras religiosas e as derradeiras revoltas nobiliárias, até que Richelieu e Luís XIV supriram, pelo menos na França, a maior parte deles. Quanto aos palácios principescos, sabe-se que na segunda metade do século XIV houve um florescer de torres-residências “vincenianas”.

Château de Vincennes

O outono da Idade Média enfeita-se com uma religiosidade nova, marcada pelo peso das cortes seculares e das associações laicas. Chega a vez das burguesias urbanas. No século XIV, século de tantas dificuldades, a arte se internacionaliza.

“Vivia-se uma época de construções, o que atiçava a rivalidade entre os princípes. Aquilo que faziam em Westminster, em Paris já estava terminado.” (O rei de Ferro, página 47Maurice Druon em Os Reis Malditos).

O espírito da cruzada já não é mais do que um sonho, uma agitação. Dos escombros da Europa da fé nasce a realidade do homem da Renascença e com ela, uma arte nova, que considera com frieza o passado e restaura uma nova ordem dos homens e do saber.

Mas esse é um assunto para outro post. Aguardem os próximos capítulos.

Palais de la Cité - residência medieval dos reis da França

E assim termina um longo sono - o sonhar com príncipes, castelos, cavaleiros e catedrais. O sonhar com feudos, sagrações, as cortes intricadas com a religião.

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Blue Decay

09/11/2009
  • For the series about shattered dreams and desilusions -
    Read more about it in: Dreams.

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Clouds' land

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Blue Decay

How many dreams have we ruined just today?
Can you count them? Can you bring them back?
I shall not fall deeper into the sea
Might I sink as I think about me?

Though this life is so vilely corruptible
Some things were not allowed
Lost dreamland, lonely and forgotten
And dreams of beauty, of grace, of fame
As violet magical as my love
As azure lucid as my fantasies

Somehow it feels like a comforting nightmare
Like the artist is just asleep
With a tender smile in her lips
Plus a fragile grip in her longings
How I wish I could come along in her new place
Then dance beside her among the clouds
Flying cotton, light and glad under brand sunlight

Through this dark path I see so many shadows
Painted in turquoise black, petrified faces
I stand all alone in cold past menace
At last we just give up for this space, hollow

State of mind, would you say?
A way for guiding, would you pray?
Stay under rain as we may
Still sleep in clouds’ land

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Dumay Isiro’s – all rights reserved ®

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Dreams

09/09/2009

Dreams are our most intimate, personal, undeniable desires.

It is what burns within our skin and pulses inside our heart. It is the slightest glow that our eyes seek when we look at the stars.

Everyone has a dream. It doesn’t matter how impossible or ordinary they sound – in your soul there will always be one. Sometimes it seems so small and insignificant that even your own mind cannot believe it and still, nothing makes sense without it when every muscle of your body and every breath of your lungs and every atom of your cells scream “this is worth living.”

In the end, that is what dreams are all about: being worth sacrificing.

Despite our best efforts to make them come true, the principle is a goal. If it is easily conquered, it’s not a real dream. Dreams are the fragile, sometimes cold, sometimes distant, sometimes strong voice inside your head that pushes you forward. And when you can’t do so, it goes on thinning, thinning, fading and fading – till you can’t hear its song anymore.

However the lack of this tiny voice makes quite a chasm in your heart. It turns into a ghostly memory, a ghostly pain haunting your every thought, a dead flame talking of what couldn’t last enough, of what couldn’t  turn alive, not nearly dead enough. It haunts with the shadow of the hopes that were never born.

It will bring you a new scar every day, every thought, every breath, every second – till there is no more space to scar. Your own mind will become dead, your eyes, pleading, your smile, grieving. Your life resembles the empty solitude, so irrelevant and so hollow as a useless statue, one that reminds us of how many failures we’ve committed.

Your mind will wander through bleak places you’ll wish you’d never laid your eyes on. And then, when you’ll start consume and expel parts of your own conscience, you’ll realize the simple truth.

There are times when it is better living without purpose, than wasting your core in dreams that will never come to truth.

Than killing your soul while your memory tortures you, while it slowly turns to ashes among colored, graceful, hurtful dreams that your heart could never bury. ..

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Moda Medieval

09/07/2009
  • Na continuidade da saga histórica aqui começada, veremos alguns aspectos de cada miscelânea temporal, iniciando com a medieval.
    Veja mais sobre Idade Média em:  Cavaleiros Medievais.

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A moda é a tendência de consumo. São diversos estilos influenciados por questões sociais, políticas e culturais. Ela acompanha o vestuário e as maneiras de se vestir, de se comportar ou pentear.

No caso medieval, houve principalmente duas grandes tendências que influenciaram não só a moda, mas todos os tipos de arte. Trata-se do período românico e do período gótico.

O período românico predominou durante a Alta Idade Média e foi a ponte entre o estilo clássico anterior e o estilo gótico. Foi a expressão artística da expansão do cristianismo na Europa, cuja construção foi fundamentalmente religiosa.

Havia uma estreita relação entre os estilos dos primórdios da Idade Média e o estilo da indumentária religiosa que foi mantido como modelo de tradição. Os povos da Europa Ocidental adotaram o estilo das túnicas de Roma, diferente da cultura oriental bizantina. A característica comum entre todos os povos que viviam naquela época era o fato dessas roupas serem confeccionadas em casa, evoluindo das túnicas merovíngias (de comprimento até a altura dos joelhos, bordadas nas pontas e amarradas por cintos) até as ricas vestimentas da época carolíngia, com enfeites de brocado.

Vestuário Masculino:

Os homens pertencentes a classe alta no século XI usavam túnicas longas, não muito decotadas e com mangas largas (gloneles), xales ou mantos que protegiam as costas. Todas as peças sempre adornadas nos barrados. Calçavam botas (Bozerguins) , sapatos fechados bicudos e polainas (nome dado as meias na época).
No século XII os homens passaram a usar por baixo das túnicas calções soltos e nas pernas várias coberturas (pelotes) forrados de pele de animais ou seda.

Alta Idade Média - vestuário masculino

Vestuário Feminino:

As mulheres no século XI passaram a usar os longos vestidos mais acinturados. A sobreposição dos vestidos era comum, usando-se um vestido longo bem ajustado ao corpo por baixo, com mangas de modelagem seca e por cima outro vestido que poderia ser um pouco mais curto com mangas longas e caídas. O barrado bordado também era muito utilizado nos vestidos femininos. Os cabelos eram longos, usados quase sempre divididos ou meio e trançados. Algumas mulheres escondiam totalmente o cabelo usando um gorro com prolongamento até o pescoço, como é comum vermos até hoje sendo usado por algumas freiras.
No século XII A sobreposição pode aparecer também por um vestido “ tipo avental” com decote quadrado ou sobreveste copiada dos trajes dos soldados das cruzadas. As mantas e os véus são usados com frequencia sobre a cabeça enfeitadas pérolas ou colares.

Alta Idade Média - vestuário feminino

penteados

Durante os séculos XI e XII acontece uma série de mudanças sociais, políticas e econômicas na Europa Ocidental. Entre elas, destacam-se o advento das cruzadas e o renascimento das cidades e do comércio, bem como um aumento populacional.  Isso tudo contribui para desencadear novas relações entre susseranos e vassalos – incluindo as relações de servos e senhores feudais e entre estes e o rei. O quadro religioso também sofre sensíveis mudanças em resposta a austeridade do estilo românico:  através da humanidade do filho de Deus, o mundo criado pode ser louvado por sua beleza. A arte cristã “reconcilia-se” com a permanência terrena; há uma glorificação estilística das criaturas. A continuidade da arte do Ocidente, enquanto arte fundamentalmente cristã, permite a regeneração das coisas visíveis e o amor pelas criaturas divinas.

A moda surge definitivamente no século XIV, apresentando mudanças significativas no vestuário. A primeira característica marcante é bifurcação da indumentária, isto é, a diferenciação das roupas masculinas e femininas. O vestuário passa a ter um caráter ornamental e estético, ao invés da velha preocupação utilitária.

Vestuário Masculino:

A partir do século XIV os homens começaram a utilizar camisas que cobriam desde o ombro até à cintura e brial agora mais comprido e justo. Os cabelos voltaram a ser aparados e curtos e os homens utilizavam frequentemente barba e Capirotes (barrete ou gorro em forma de crista). O sapato era feito de pele de bode ou cabra. As roupas das classes dominantes ganharam muitos enfeites e acessórios, como botões e cintos ornamentados com pedrarias. Contrariamente ao que se pode pensar, o homem possuía visual mais exuberante do que a mulher.

A partir do século XIV

Há a emergência dos sapatos pontudos:

Sapato Medieval

“Quando encomendam sapatos na família, são vinte e quatro, quarenta ou cinqüenta pares de cada vez. [...] É sabido que esses ridículos sapatos de grandes pontas arrebitadas (as polônias) não suportam a lama; as compridas pontas se deformam, os ornatos perdem o brilho, e em três dias estão completamente estragados, esses sapatos que exigiram um mês de trabalho dos melhores artesãos da oficina de Guilherme Loisel, em Paris.” (Quando Um Rei Perde A França, página 104 – Maurice Druon em Os Reis Malditos)

Vestuário Feminino:

A túnica longa e flutuante usada indistintamente há séculos pelos dois sexos foi substituída por um traje feminino que perpetua a tradição do vestido longo, muito mais ajustado e decotado. Os trajes se tornaram bem mais justos, por isso, eram fechados por cordões ou abotoados dos lados. As mangas também eram justas e abotoadas do cotovelo ao punho, chegavam até o cotovelo e às vezes tinham alongamentos, em forma de faixas largas ou estreitas, que iam até os joelhos, às vezes desciam até o chão. A peça de baixo tinha uma cauda e sobre ela eram usados diferentes tipos de sobreveste (também terminando em cauda).

Mulher Medieval

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Já no século XIV era hábito das mulheres colocar uma armação de arame com formatos de coração, borboleta…. sob uma peça de tecido tornando os chapéus extravagantes. Os cabelos eram penteados para trás, escondidos, e, se cresciam na testa, eram raspados para que o chapéu fosse a atração principal. Em 1500 começa-se a usar os capuzes enfeitados com jóias e bordados. As mulheres usavam chapéus cônicos e altos chamados hennins. Era um chapéu alto de 70 a 80 ou 90 cm rodeado por véus. Havia várias espécies de hennins e mais tarde tomaram a designação vulgar de crespinas.

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De maneira geral, na segunda metade do século XIV as roupas, tanto masculinas quanto femininas adquiriram novas formas, surgindo assim algo que já podia ser chamado de moda.

Vestuário medieval
Vestuário

Após os meses de terror e de infelicidade que se acabava de atravessar durante a peste, todo mundo gastava loucamente. Sobretudo em Paris. Em volta da corte, era a demência. Pretendia-se que essa intemperança de luxo propiciava trabalho ao poviléu. Entretanto, não se via nada disso nos casebres e nas mansardas. [...]

A moda tornou-se extravagante, e o duque João, embora já com seus trinta e um anos de idade, exibia, em companhia do senhor de Espanha, cotas recortadas tão curtas que lhes deixavam as nádegas à mostra. Riam-se deles à sua passagem.”

(Quando Um Rei Perde A França, página 40 – Maurice Droun em Os Reis Malditos)


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Absence

09/05/2009
  • Related to what was discussed in the first post, here what we may call “feeling nothing and everything” at the same time. A poetic conclusion for melancholic days.See more about it in: Eventually.

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Just feeling

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Absence

I look at the window
I know there’s nobody out to give me farewell
As I know these lines won’t last forever
And…It doesn’t matter at all

I look at the stars
I know they’ve burned out long ago
Like all the memories I write here
I know that days won’t become anything but a scar in time’s space
Though…I feel… absolutely… nothing

I look through the window
I see you
I know you won’t remind me as soon as possible
And why should you?
In fact what matters is that
I’ll remind you
I’ll remind it all

It has never been about regrets, or missing, or mourning
It’s about not feeling pain, nor joy, nor anger
I know it’ll be nostalgic
And as quiet as the morning breeze
But what shall we do?
Live our lives like it is the very last day?

Perhaps that’s exactly so
Or perhaps it’s about not giving up hoping
And sharing the emotion in everyone’s eyes
And then forget being, forget thinking,
Forget fighting, forget dreaming
And forget caring for the meaning
And then forget running, forget breathing,
Forget grieving, forget weeping, forget feeling
Then be one with the time, space and life

After all, what matters if people remind or remind not
The summer sunlight, the birds’ singing,
the grave’s silence, the tear’s sorrow?
None
It’s not about being, it’s about standing
And living
All day long

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Dumay Isiro’s – all rights reserved ®


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Cavaleiros Medievais

09/04/2009

Justo faz-se que muitos comentem sobre como as cantigas medievais parecem cafonas, antiquadas ou arrítmicas, justo que se fale que o trovadorismo foi apenas uma etapa primitiva na história da literatura – mas não se pode negar o prodígio da prosa da Idade Média. Retirando as hagiografias, os bronicões e os nobiliários, os romances de cavalaria constituíram uma grande invenção que está presente até hoje, e essa invenção é a ficção – a deusa da criatividade escrita.

Rei Arthur

O cavaleiro era o personagem essencial da Idade Média. Sua honra e sua moral, sua bravura e cordialidade faziam parte das grandes virtudes que se procurava em uma literatura cristã. Havia um código de honra e conduta cavalheiresca, que muitas vezes era a própria problemática, desalinhando uma série de conflitos de caráter – conflitos muitas vezes entre os deveres e as artimanhas de um amor cortesão proibido. (Exemplos: Eric e Enide, O cavaleiro do leão, O cavaleiro da charrete.) Não se pode esquecer, porém, que os romances de cavalaria eram principalmente de aventura, algumas em que o cavaleiro corria toda a sorte de perigos, embrenhava-se nas florestas, combatia inimigos (geralmente não-cristãos) e seguia sempre armado e sozinho.

Logicamente cavaleiros desse tipo não existiram – impossível fazia-se armar e desarmar sem a ajuda de um simples escudeiro, impossível fazia-se estar com a armadura por dias (o que no mínimo provocaria assaduras) – mas a figura deste cavaleiro errante e cheio de princípios ainda viria a ser a maior figura literária medieval – tal modelo a ser seguido, que até os reais cavaleiros tentavam imitar.

“Pela abertura levantada do capacete, os cavaleiros mostravam seus rostos pingando de suor, mas animados de uma alegria belicosa. Muitos deles, senhores feudais de menor importância, usavam velhas armaduras fora de moda, herdadas de um pai ou tio-avô. [...] Estes, antes que chegasse a noite, estariam feridos nas juntas, e seus corpos ficariam cobertos de cascas sangrentas; todos, aliás, traziam em sua bagagem de seus servos de armas um pote de ungüento ou faixas de tecido para fazer curativos.

Diante de Robert encontravam-se todas as amostras de moda militar do último século, todas as formas de protetores de cabeça e de elmos; algumas daquelas couraças datavam da última cruzada. [... ]Todos tinham mandado pintar recentemente os escudos curtos em que brilhavam, com cores gritantes, suas insígnias de armas, simples ou complicadas, de acordo com o grau de antigüidade da nobreza de cada um, sendo que as marcas mais simples pertenciam, forçosamente, às famílias mais antigas.” (A Lei dos Varões, pág 119 – Maurice Druon, em Os Reis Malditos.)

Mas a literatura medieval não era tão afastada da realidade. A cavalaria realmente se tornou um modo de vida com códigos e idéias próprias desde a metade do século XII até o século XIII, quando se fundiu com a nobreza. Ela se tornou a “elite da elite”, que em tempos guerreiros, era a militar. Infelizmente, a era de ouro dos cavaleiros não durou muito. Ela entrou em declínio a partir da superioridade técnica de outros profissionais da guerra, principalmente os arqueiros (devido a famosa batalha de Crécy em 1356, na França da Guerra dos Cem Anos), dos seteiros e dos “soldados a pé”, os soldados de artilharia. Os cavaleiros resistiam, em vão, a sua crescente desvalorização, exaltando seus méritos ou privilégios.

Em verdade, a realidade do cavaleiro contrastava com o quadro literário forjado no século XI de defensor das viúvas, dos órfãos e dos cristãos. Não se pode esquecer que antes de tudo, o cavaleiro era um homem que guerreava, o que envolvia a violência dos mais fortes. Havia os fatores consideráveis, tais como o custo em se entrar para a ordem da cavalaria, e a tentativa de todo cavaleiro em preservar ou aumentar o seu patrimônio. Muitos o faziam através de maneiras ilegais, principalmente depois da Guerra dos Cem Anos, em que a pilhagem era o único recurso disponível e que não contradizia às práticas de combate e violência dos cavaleiros. Naquela época, inclusive, cavaleiro era sinônimo de saqueador. Não muito parecido com aquele herói cortês, casto e cristão, não é mesmo?

Enfim, sem me alongar mais em detalhes da cavalaria (que certamente ainda são mais extensos e complexos) só se pode concluir que o período medieval foi um dos mais ativos em criação de literatura e cultura. A imagem do cavaleiro dedicado, fiel, altruísta foi um dos grandes inventos literários que ainda hoje fascina milhões de pessoas. É atrás deste personagem que as pessoas vão, ao se encantar com as histórias de Rei Arthur, de Lancelot, de Carlos Magno, Percival ou Tristão.

Dance of the Knights

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