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Cavaleiros Medievais

09/04/2009

Justo faz-se que muitos comentem sobre como as cantigas medievais parecem cafonas, antiquadas ou arrítmicas, justo que se fale que o trovadorismo foi apenas uma etapa primitiva na história da literatura – mas não se pode negar o prodígio da prosa da Idade Média. Retirando as hagiografias, os bronicões e os nobiliários, os romances de cavalaria constituíram uma grande invenção que está presente até hoje, e essa invenção é a ficção – a deusa da criatividade escrita.

Rei Arthur

O cavaleiro era o personagem essencial da Idade Média. Sua honra e sua moral, sua bravura e cordialidade faziam parte das grandes virtudes que se procurava em uma literatura cristã. Havia um código de honra e conduta cavalheiresca, que muitas vezes era a própria problemática, desalinhando uma série de conflitos de caráter – conflitos muitas vezes entre os deveres e as artimanhas de um amor cortesão proibido. (Exemplos: Eric e Enide, O cavaleiro do leão, O cavaleiro da charrete.) Não se pode esquecer, porém, que os romances de cavalaria eram principalmente de aventura, algumas em que o cavaleiro corria toda a sorte de perigos, embrenhava-se nas florestas, combatia inimigos (geralmente não-cristãos) e seguia sempre armado e sozinho.

Logicamente cavaleiros desse tipo não existiram – impossível fazia-se armar e desarmar sem a ajuda de um simples escudeiro, impossível fazia-se estar com a armadura por dias (o que no mínimo provocaria assaduras) – mas a figura deste cavaleiro errante e cheio de princípios ainda viria a ser a maior figura literária medieval – tal modelo a ser seguido, que até os reais cavaleiros tentavam imitar.

“Pela abertura levantada do capacete, os cavaleiros mostravam seus rostos pingando de suor, mas animados de uma alegria belicosa. Muitos deles, senhores feudais de menor importância, usavam velhas armaduras fora de moda, herdadas de um pai ou tio-avô. [...] Estes, antes que chegasse a noite, estariam feridos nas juntas, e seus corpos ficariam cobertos de cascas sangrentas; todos, aliás, traziam em sua bagagem de seus servos de armas um pote de ungüento ou faixas de tecido para fazer curativos.

Diante de Robert encontravam-se todas as amostras de moda militar do último século, todas as formas de protetores de cabeça e de elmos; algumas daquelas couraças datavam da última cruzada. [... ]Todos tinham mandado pintar recentemente os escudos curtos em que brilhavam, com cores gritantes, suas insígnias de armas, simples ou complicadas, de acordo com o grau de antigüidade da nobreza de cada um, sendo que as marcas mais simples pertenciam, forçosamente, às famílias mais antigas.” (A Lei dos Varões, pág 119 – Maurice Druon, em Os Reis Malditos.)

Mas a literatura medieval não era tão afastada da realidade. A cavalaria realmente se tornou um modo de vida com códigos e idéias próprias desde a metade do século XII até o século XIII, quando se fundiu com a nobreza. Ela se tornou a “elite da elite”, que em tempos guerreiros, era a militar. Infelizmente, a era de ouro dos cavaleiros não durou muito. Ela entrou em declínio a partir da superioridade técnica de outros profissionais da guerra, principalmente os arqueiros (devido a famosa batalha de Crécy em 1356, na França da Guerra dos Cem Anos), dos seteiros e dos “soldados a pé”, os soldados de artilharia. Os cavaleiros resistiam, em vão, a sua crescente desvalorização, exaltando seus méritos ou privilégios.

Em verdade, a realidade do cavaleiro contrastava com o quadro literário forjado no século XI de defensor das viúvas, dos órfãos e dos cristãos. Não se pode esquecer que antes de tudo, o cavaleiro era um homem que guerreava, o que envolvia a violência dos mais fortes. Havia os fatores consideráveis, tais como o custo em se entrar para a ordem da cavalaria, e a tentativa de todo cavaleiro em preservar ou aumentar o seu patrimônio. Muitos o faziam através de maneiras ilegais, principalmente depois da Guerra dos Cem Anos, em que a pilhagem era o único recurso disponível e que não contradizia às práticas de combate e violência dos cavaleiros. Naquela época, inclusive, cavaleiro era sinônimo de saqueador. Não muito parecido com aquele herói cortês, casto e cristão, não é mesmo?

Enfim, sem me alongar mais em detalhes da cavalaria (que certamente ainda são mais extensos e complexos) só se pode concluir que o período medieval foi um dos mais ativos em criação de literatura e cultura. A imagem do cavaleiro dedicado, fiel, altruísta foi um dos grandes inventos literários que ainda hoje fascina milhões de pessoas. É atrás deste personagem que as pessoas vão, ao se encantar com as histórias de Rei Arthur, de Lancelot, de Carlos Magno, Percival ou Tristão.

Dance of the Knights

3 comentários

  1. [...] Na continuidade da saga histórica aqui começada, veremos alguns aspectos de cada miscelânea temporal, iniciando com a medieval. Veja mais sobre Idade Média em:  Cavaleiros Medievais. [...]


  2. [...] saga histórica, fechando  o período da Idade Média. Leia mais sobre ela em Moda Medieval e Cavaleiros Medievais. Aguardem as cenas dos próximos capítulos [...]


  3. [...] do estudo diacrônico entre arte e pensamento. Veja mais artigos relacionados em: Cavaleiros Medievais, Moda Medieval e Arquitetura Medieval. Veja também outros estudos exterporâneos sobre [...]



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