
Donzela em Perigo(!)
09/25/2009A Donzela e seu Conto de Fadas
O tema da “Donzela em Perigo” é um dos temas mais utilizados em literatura, cinema, pintura e tantas outras formas de arte. Mas o que realmente significa ser uma “donzela em perigo”? Será que esse estereótipo carrega essa impressão pejorativa justamente ou virou apenas um alvo dos movimentos feministas?
Para começar, uma Donzela em Perigo significa uma moça jovem que é ameaçada, sacrificada ou perseguida. Geralmente é retratada como sendo indefesa e ingênua, necessitando de outros para resgatá-la.

Primeiramente (e sempre), recorramos à história. O exemplo, talvez mais antigo, é o mito de Andrômeda – cuja mãe ofendeu Poseidon e como conseqüência foi castigada com um monstro enviado. Após seu pai, o rei Cefeu da Etiópia, consultar o oráculo Ammom, Andrômeda é enviada ao sacrifício como única forma de salvação do reino. É nesse ponto que surge Perseu, que vinha da vitória contra a Medusa, e salva Andrômeda. A partir daí observa-se uma tendência a associação do caso “Princesa e Monstro” e “Donzela em Perigo”.
Enquanto a história segue seu caminho, vemos o aparecimento dos contos de “Uma Mil e Uma noites” com o exemplo da princesa de Sana’a, além de, claro, o tema de “donzela em perigo” ser amplamente utilizado nos escritos literários medievais, como vemos em “Orlando furioso” e as hagiografias de São Jorge. (Lembremos que um dos papéis do cavaleiro medieval era proteger as donzelas, como visto em Cavaleiros Medievais).

Há também os casos dos contos de fadas originários de lendas medievais como Rapunzel, Branca de Neve e A Bela Adormecida. Mas há um porém, as lendas reais não foram representadas no jeito passivo de como estamos acostumados. O modo por qual conhecemos essa estórias são adaptações e remontagens de autores da Era Vitoriana, influenciados pela literatura gótica. As heroínas foram readaptadas para condições mais socialmente aceitáveis naquela época.

Originalmente, essas lendas contavam com donzelas que trabalhavam ativamente para sua libertação – em “Rumpelstiltskin”, a personagem usa sua inteligência para driblar o duende que vinha tomar-lhe o filho; no conto da Bela e a Fera, Bela se sacrifica para salvar a vida de seu pai e é o agente que garante a redenção de Fera; na lenda germânica de Cinderella (“Aschenputtel”), ela não se conforma em não ser permitida a ir ao baile, mas encontra outra maneira de ir. O papel do príncipe nesses contos não é salvar a heroína do mal, mas providenciar os meios – se a heroína aceita – para assegurar seu futuro depois de enfrentar o mal, geralmente pelo casamento (e/ ou possibilidade de maternidade).

De fato, a história dos contos de fada (aos quais foram associados às figuras de donzela em perigo, após o período vitoriano) envolve uma figura feminina central que está na puberdade como heroína. Esses contos representam a passagem da personagem à idade adulta através de seus confrontos com uma figura má, geralmente bruxa ou outra criatura, que tem a intenção de destruí-la. A personagem é jovem, virgem, trabalhadora e caridosa.

De acordo com a Jornada de Herói d e Joseph Campbell, a primeira etapa é onde o herói/heroína é levado do conhecido e familiar ao desconhecido pela figura má. É geralmente nessa etapa também, que a personagem conhece seu interesse amoroso. Essa passagem representa o primeiro passo de abandono da infância e entrada à fase adulta e à maturidade sexual. Os outros passos são: confrontação da figura má, vitória sobre o mal e – nos contos modernos – final feliz, o ponto em qual o papel da heroína (ser mãe, rainha ou ambos) é conquistado. (Veremos mais sobre contos de fadas em outro post – este é apenas introdução).
Ainda de acordo com o trabalho de Joseph Campbell, os heróis possuem uma estória na qual são quase destruídos. Ao sobreviver a essa quase-morte, o herói prova que possui qualidades especiais e emerge renascido para a vitória. Assim, a figura da “donzela”, mitologicamente e opostamente às críticas femininas, é a heroína que emerge como uma mulher forte e clama a vitória. Há, porém, uma diferença desse conceito para o herói e a heroína, já que a personagem que faz o resgate (a ajuda não-procurada) é invariavelmente masculina.

Então, de acordo com essa teoria, há divergências entre os filmes seriados das décadas de 1910 até 1960, como “The Perils of Pauline”, “What Happened to Mary?”, “Shambleau”, os filmes da franquia de James Bond (o São Jorge Moderno), e os mais recentes retratos de heroínas fortes como ocorrido em “The Avengers”, “Buffy the Vampire Slayer”, “Star Wars” , “Alias”, etc. – que fazem uma concordância com a teoria campbelliana.
A Donzela em Perigo é, no fim das contas, a heroína em fase inicial. Ela transita de um estágio ao outro e recebe ajuda, o que não significa que seja dependente. Após sua vitória, ela consegue suas honrarias e devido lugar a sua condição de heroína.
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