
A Bela Adormecida
10/11/2009Espinhos afiados como facas.
Iniciamos aqui uma série de questões relacionadas aos mitos e contos de fadas. Abordamos a magia, o lirismo, o caráter moral e estruturador dessas estórias imortais. O poder das imagens femininas evocadas em tais contos também se apresenta como uma fonte espiritual reconciliadora. Mas ainda assim, precisamos de um exemplo, de um ícone, de uma heroína que venha afugentar as trevas e dominar o cenário.
Mas por que Aurora? Por que falar de A Bela Adormecida? De todo o estoque de bravas heroínas, de garotas determinadas e inteligentes, nos encontramos ao lado da cama de uma heroína cujo talento repousa na habilidade de… repousar? O que essa garota muda que virou o epítome de passividade significa para as jovens mulheres contemporâneas, ansiosas por controlar seus próprios destinos?
Em meio ao pantheon de heroínas, mesmo aquelas que casaram facilmente em um final feliz, a inércia de a bela adormecida é quase uma admissão de fracasso, uma vergonha à falta de espírito do gênero feminino. E mesmo assim, Bela Adormecida possui uma força própria que é inegável. Apesar de dormir, ela sustentou teimosamente seu lugar em nossa tradição de contos, mesmo com todos os esforços feministas de censurá-la por ser tão passiva. Através dos séculos, o perímetro de sua estória foi redesenhado, seu dilema remodelado, sua salvação mudada – mas ela agüentou cada reencarnação com uma coisa de sua estória intacta original. No final, foi o poder de Bela de sustentar sua existência, mesmo de sua cama, que nos venceu. Nós podemos não gostar de sua passividade, mas temos que admitir sua presença durável e louvar sua sobrevivência tenaz.
Uma das versões mais antigas e certamente mais provocantes do conto é o que nomearam de “O nono conto do Capitão”, encontrada no livro das Mil e Uma Noites. Embora se passe em um ambiente exótico oriental, ele começa com conflitos familiares. Uma mulher deseja uma criança e declara “Me dê uma filha, mesmo que ela não consiga tolerar o odor do linho”. Seu desejo é concebido e dela nasce uma menina. Enquanto a menina cresce, o filho do Sultão é atraído por sua beleza e começa a cortejá-la. Então, em um infortúnio, a sua mão toca em linho e ela cai em um sono tão profundo como morte. Seus pais transportam seu corpo incorruptível a um santuário elaborado em uma ilha. O filho do Sultão, ainda muito apaixonado por ela, vem visitá-la em seu santuário. Um beijo acorda a donzela adormecida e eles tem relações sexuais por quarenta dias.

Entretanto o filho do Sultão não pode permanecer na ilha por tempo indeterminado, e eventualmente ele a abandona. Com raiva, a jovem usa o anel mágico de Salomão e deseja que um palácio seja construído ao lado da porta do palácio do Sultão. Ela também deseja ser transformada em uma moça ainda mais bela, irreconhecível e irresistível ao ex-amante. O filho do Sultão descobre rapidamente sua nova vizinha e se apaixona. Ele a manda presentes, que ela descarta. Desesperado, o filho do Sultão implora para saber como ele pode provar que vale o suficiente para ela. Ela lhe diz que ele deve se enrolar em um manto e se permitir ser enterrado no solo do palácio e ser lamentado como morto. O jovem concorda e permite seus pais a vesti-lo em roupas de funerais e enterrá-lo. Sua mãe senta perto do túmulo e lamenta sua morte. Satisfeita, a jovem vem até o palácio, retira o filho do sultão de sua sepultura e revela a sua verdadeira identidade. “Agora eu sei”, ela diz, “que você irá a qualquer nível pela mulher que você ama”.

O que é surpreendente nessa versão é que o conto é sobre dois amantes e ambas as jornadas de transformação. Cada um vivencia uma morte, um fim as suas vidas como crianças. Ele morre e é enterrado na terra e o ato final da jovem de revivê-lo apenas enfatiza a sua fertilidade. Ele é um filho de Sultão, mas ela, confiante em seu próprio poder, é igual a ele.
Quanto às versões posteriores européias, elas constam a partir do século XVII. A primeira, chamada “Sol, a Lua e Talia” possui autoria do contador de estórias italiano Giambattista Basile, e foi publicada em sua coleção popular Pentamerone. Contos de fadas italianos estão entre as mais antigas estórias a ser publicadas na Europa. Essas antigas descrições eram caracterizadas violentamente e sexualmente (e claramente não destinadas ao público infantil).
Na versão de Basile (original da região Nápoles), a Bela, conhecida como Talia, cai em um sono profundo como morte quando pedaço de linho entra debaixo de sua unha. Ela dorme em uma casa escondida na floresta. Um dia um Rei passa por lá e descobre a donzela adormecida. Ele lhe acha muito bonita, e sem protesto, faz sexo com ela – enquanto Talia, inconsciente às investidas ardentes do Rei, continua a dormir. O Rei vai embora da floresta e retorna ao seu castelo e esposa. Nove meses depois, Talia, ainda adormecida, dá a luz aos gêmeos Sol e Lua. Uma das crianças famintas, procurando o seio de sua mãe, chupa seu dedo e retira o fragmento de linho. Talia acorda e descobre seus filhos. Depois de um tempo, o Rei volta à floresta e encontra Talia acordada, ninando seu filho e filha. Surpreso, ele os leva para seu reino, onde sua esposa, naturalmente, os trata com ciúme. Assim que o Rei parte para guerra, a esposa ordena que cozinhem Sol e Lua, então prepara um banquete para seu marido. O gentil cozinheiro esconde as crianças e os substitui por uma variedade de pratos. A esposa decide assassinar Talia no fogo. Enquanto Talia é despida, cada camada de sua roupa grita alto (em outras versões, os sinos em seu petticoat tocam). No fim, o Rei ouve o som e vem resgatar Talia. A esposa invejosa é morta, o cozinheiro revela onde estão as crianças e o Rei e tália são unidos em um casamento decente.
Mais tarde no mesmo século, um francês chamado Charles Perrault escreveu sua própria versão da Bela Adormecida baseada na estória de Basile. Enquanto estupro e adultério foram considerados muito escandalosos para Perrault, ele não encontrou problemas quanto ao canibalismo da versão italiana. Perrault mudou o Rei e sua esposa em um Príncipe e sua mãe ogra, com um péssimo temperamento e um gosto pela carne humana. As crianças de Bela estão para serem servidas no molho e a própria Bela está para ser assassinada.Mas o gentil cozinheiro engana a ogra, escondendo Bela e suas crianças e servindo um cordeiro e um veado em seus lugares. Quando a ogra descobre a verdade, ela se enfurece e planeja jogar todos num pote de víboras e sapos. Mais uma vez o Príncipe chega a tempo e salva seu amor do perigo – jogando sua mãe no pote e a destruindo.
Essas versões européias trocam a ênfase da versão árabe mais antiga. Bela Adormecida ainda é o centro do conto, mas é menos uma participante do que um objeto de poder a ser adquirido. Os contos europeus pareciam centrados nos homens, não na heroína adormecida. A necessidade por um herdeiro é crucial. Basile não dispensa nem um momento de simpatia pela esposa enganada pelo Rei. Sua infertilidade a define como má, e sua substituição pela mágica noiva fértil, um triunfo. Talia, por um outro lado, é capaz de dar a luz à gêmeos mesmo enquanto ela dorme sob o semblante da morte – a transformando não muito em uma humana mas quase uma criatura supranatural – e transformando sua impregnação não um crime (o estupro em nossos olhares modernos), mas um ato no qual o Rei duela com o fantástico, simultaneamente provando sua virilidade. Os nomes das crianças sugerem uma ressonância com os antigos contos cosmológicos e a criação dos mitos, muitos dos quais envolvem o nascimento de crianças por meios mágicos. Mesmo assim, o conflito entre as mulheres nos contos também é um elemento importante, particularmente para o contexto feminino do século XVII. Uma nova noiva, trazida à família do marido era comumente uma pedra no sapato da sogra em muitas partes da Europa, enquanto em outras áreas era a sogra que era ameaçada pela perca do poder para uma mulher mais jovem.
A Bela Adormecida sofreu mais mudanças no século XIX quando os Irmãos Grimm publicaram sua versão “Pequena Rosa Silvestre” em uma coleção de contos de fadas para crianças. Enquanto os irmãos Grimm mantiveram uma parte da imagem sombria da tradição oral, a sexualidade e o caráter violento dos contos desapareceram. No século XIX na Inglaterra, os escritores vitorianos publicaram limparam os contos de fadas, retirando mais uma vez a violência e simplificando as narrativas. Os leitores vitorianos queriam que essas estórias fossem encantadas, refletindo os papéis dos gêneros em seu tempo, e acima de tudo que eles instruíssem as crianças das classes média e alta em sua moral apropriada.

O príncipe não precisava nem beijá-la, ele meramente ajoelhava ao lado de sua cama. A Bela Adormecida é diminuída em outros meios nessas versões posteriores “civilizadas”. Variações mais antigas sugerem que o pai é a personagem com maior culpa, trazendo a maldição a sua filha por lidar inapropriadamente com o fantástico (como uma fada importante). Mas as versões vitorianas parecem sugerir que a garota é responsável pelo seu próprio destino, punida por sua desobediência ao comando de seu pai para não tocar na roca. Nessas versões, não apenas a Rosa Silvestre sofre, mas seus pais e a corte inteira devem dormir por cem anos. (Imaginemos que para aquela classe vitoriana, uma filha privilegiada manejando as ferramentas das classes mais baixas provoque alarme, ameaçando diminuir o status da família. O pecado da Rosa Silvestre só pode ser expiado quando um homem honrado, tanto em espírito quanto em nobreza, redime sua transgressão – restaurando tanto a filha quanto sua família a sua posição social).
Antes de avançarmos na evolução temporal do conto a um novo século, é necessário fazer mais algumas distinções quanto à caracterização dos contos. Sabe-se que o período de Charles Perrault foi o período do desenvolvimento dos salões literários de Paris e o surgimento das figuras das fadas como agentes nessas estórias (conte de fées). É apartir do conto de Perrault, pois, que as fadas passam a representar um importante papel em A Bela Adormecida. Em seu conto são apresentadas sete fadas sem nome distintivo como madrinhas da princesa nascida, sendo a sétima a que ameniza o sortilégio lançado pela velha fada, Carabosse.
« On donna pour Marraines à la petite Princesse toutes les Fées qu’on pût trouver dans le Pays (il s’en trouva sept), afin que chacune d’elles lui faisant un don, comme c’était la coutume des Fées en ce temps-là, la Princesse eût par ce moyen toutes les perfections imaginables. »
(Deu-se como madrinhas da pequena Princesa todas as fadas que se pôde encontrar no País (e se encontrou sete), para que cada uma delas fizesse um dom, como era costume das fadas nesse tempo, afim de que a Princesa tivesse por este meio todas as perfeições imagináveis.)
Na adaptação dos irmãos Grimm, as sete fadas passam a ser doze. É importante destacar o papel da fada má Carabosse (conhecida atualmente como Malévola), como o simbolismo da transmissão contínua e ancestral das mudanças psicológicas que intervêm à adolescência.
« Le rang de la vieille Fée étant venu, elle dit en branlant la tête, encore plus de dépit que de vieillesse, que la princesse se percerait la main d’un fuseau, et qu’elle en mourrait. » (Perrault)
(A fila da velha Fada chega, ela diz agitando a cabeça, mais por despeito do que por velhice, que a princesa furar-se-ia a mão em um fuso, e que ela morreria.)
«Elle voulait se venger de n’avoir pas été invitée. Sans saluer quiconque, elle s’écria d’une forte voix :
- La fille du roi, dans sa quinzième année, se piquera à un fuseau et tombera raide morte.
Puis elle quitta la salle. Tout le monde fut fort effrayé. La douzième des fées, celle qui n’avait pas encore formé son vœu, s’avança alors. Et comme elle ne pouvait pas annuler le mauvais sort, mais seulement le rendre moins dangereux, elle dit :
- Ce ne sera pas une mort véritable, seulement un sommeil de cent années dans lequel sera plongée la fille du roi. » (Grimm).
(Ela queria vingar-se por não ter sido convidada. Sem cumprimentar ninguém, gritou com forte voz:
- A filha do rei, no seu décimo quinto ano, picar-se-á com um fuso e cairá dura morta.
Depois deixou a sala. Todos ficaram fortemente assustados. A décima segunda fada, aquela que ainda não havia formado seu desejo, avançou-se então. E como não podia anular a má sorte, mas apenas torná-la menos perigosa, diz:
-Não será uma morte verdadeira, apenas um sono de cem anos no qual será mergulhada a filha do rei.)

Foi a partir do conto de Perrault, que o notável ballet de 1890 “Piachtchaïa Krassavitsa” (A Bela Adormecida) de Tchaikovsky foi criado. O cenário que foi lhe dado foi baseado na versão dos Irmãos Grimm, no qual o fim diferente em relação aos pais da Princesa (o Rei e a Rainha), que sobreviveram aos cem anos de sono para celebrar o casamento da filha. O diretor do teatro ainda acrescentou personagens de outros contos no terceiro ato.
A herança dos contos e suas fadas se faz notável:
- As Fadas:

Veja o vídeo aqui.
- Carabosse:

Veja o vídeo aqui.
E o que aconteceu com a Bela Adormecida ao entrar no século XX? Ao examinarmos versões contemporâneas da estória, descobrimos que a resposta moderna ao tema provou ser variada à medida que se recorre às antigas narrativas. Em nosso século, a Bela Adormecida fala mais a uma identidade comum, um ícone para o molde da imagem feminina das novas gerações. Ao invés disso, nossa princesa se encontra retratada em muitas formas diferentes: como uma indefesa menina caseira dos anos 50, uma heroína corajosa de uma space opera, uma rainha viajante do tempo oprimida, uma sobrevivente de um holocausto, uma criança que sofreu abuso sexual, e muitas outras versões. Seu tema varia de insuportavelmente brilhante até obscuro e sinistro, refletindo a ambigüidade de nosso tempo em relação ao papel sexual feminino e a identidade da mulher.

Em 1959, os estúdios da Disney criaram uma versão animada da estória que a maioria dos americanos conhece hoje – simples, brilhante, limpa, romântica e induvidosa. Essa Bela Adormecida é inocente e pura, seu príncipe nobre e casto…e indefesa sem a ajuda de um par de fadas madrinhas.
Todos no conto são divididos entre o Bem o e o Mal, e há apenas um único vilão, a fada má Malévola. De qualquer modo, é uma doce mas completa mente fraca rendição, refletindo os valores da América pós-guerra: o mundo dividido em Bem e Mal, uma menina bonita e passiva esperando seu príncipe antes que sua vida comece, e um corajoso herói que precisa lutar pra salvá-la. As emoções cruas que deram às antigas narrações sua vitalidade foram repreendidas. A mãe-ogro, a esposa enganada, os gêmeos, e tantas as outras coisas foram notadamente retiradas. Mas enquanto a versão do filme da Disney ( e as incontáveis versões que foram inspiradas por ela) estabilizava a estória como um conto de fadas infantil, retirando-lhe de toda complexidade, outros artistas do século XX começaram a reganhar a audiência adulta, revisando uma Bela que tinha perdido sua inocência e sua incorruptibilidade.
Prova-se então, que há algo bastante tentador sob essa enigmática figura, parecendo passiva, mas ainda envolvida por “espinhos afiados como facas”, perigo e morte. Nas versões antigas, redescobrimos o humor e força originais de Bela. Mesmo com cada geração tentando domá-la e alterar a substância de sua natureza, o poder de Bela como um agente transformador continuou a brilhar do interior de seu conto. Escritores contemporâneos ainda são enfeitiçados por seu potencial criativo e a Bela Adormecida ainda voltará com sua antiga vitalidade.

Termino assim, esse longo post, com um poema de Debra Cash:
Briar Rose
A hundred years of dreams —
I would not have given up an hour
of those shifting landscapes, the tower, the lagoon
the rough roses making a cradle around my bed.
Everything stops
for me and for everyone else I know
while behind my wincing eyelids I absorb
my parents’ recklessness.
We wanted the best for you, they’ll tell me:
all those girlish virtues
a pretty face and figure, kindness to the poor
the ability to sing and play the spinet.
Inviting the colors of the rainbow to my Christening,
spraying me with holy white light,
they locked out one color of the spectrum
the darkness that absorbs it all
and I blame my father. Maleficent came to his birth
just as surely as she did to mine:
the difference is that everyone knew her then
when her name was Poverty and Need
and the guests all bowed their heads. In our day,
my birthday, no one expected her.
Evil, they called her. I call her
Resentment. Fury. Locked away, I dream
and no one tells me what to do.
No one breaks in. And when a stranger offers me a spindle
glistening, sexual, I sink into the pillows
and remember the worst has already happened:
I have survived death and turned it into sleep
and a dream lasting one hundred years.
When I wake
I will know my lover’s face.
- Veja mais sobre contos de fadas e heroínas em: Contos de Fadas e Donzela em Perigo(!).





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