Posts de fevereiro \28\UTC 2010

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O Traje Tudor

02/28/2010

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O advento do Renascimento atribuiu aos reinos europeus um refinamento cortesão.  A elegância do indivíduo passa a ser valorizada como um meio de se sobressaltar como súdito querido e estimado do rei, e não mais apenas os meios derivados da “brutalidade e táticas guerreiras de espírito” da cavalaria. A figura do rei, por sua vez, é vestida e ornada em sua própria luz. O traje do século XVI é complexo, estilizado e elaborado. Contudo, não se deve esquecer que o ideal de trajes que possuímos de cada época é sempre passado através das representações dos nobres em ocasiões solenes, e existiu sempre as formas mais confortáveis do quotidiano, utilizadas também por servos, domésticos, camponeses e o populacho em geral.

Encaramos a corte Tudor aqui como um dos melhores exemplos de configuração característica deste período do Renascimento, entendendo todas as suas exasperações de influências estrangeiras, principalmente advindas da França e Espanha. O absolutismo concreto e independência política da Inglaterra gerada pela Reforma Inglesa, bem como pela competição entre os príncipes e Henrique VIII, criaram exemplos que merecem ser aqui citados.

Durante o século XVI, o Nordeste da Europa e as Ilhas Britânicas passam por uma curta era glacial que desencadeou uma estrutura de várias camadas de tecido nas roupas, como também ornamentos, tecidos pesados, cortes especializados e guarnições para que os indivíduos pudessem ser devidamente protegidos das baixas temperaturas. As linhas estreitas do período medieval são substituídas por silhuetas amplas, acompanhadas de um cuidado às mangas, com guarnições de forro e pele. Essa silhueta se mostrava cônica para as mulheres, com vestidos marcados à cintura, e se mostrava larga para os homens, principalmente na área dos ombros.

O traje masculino evoluiu da silhueta longa e estreita até a silhueta quase quadrada, com ênfase no ombro obtida através de golas e mangas largas. O traje era constituído por, basicamente, uma camisa de linho (chemise), um gibão, que deixava à mostra pelas mangas parte do tecido da chemise, uma jaqueta com saia até o joelho, mangueira (estilo de meias masculinas que englobavam as pernas), codpiece (na virilha da calça, acentuando a área genital), e uma abertura de vestido (tipo capa) que era forrado e de mangas curtas. Esse vestido podia ir até o tornozelo, como as primeiras tendências, utilizada depois pelos magistrados e estudiosos, ou até os joelhos.

Quanto aos chapéus, o barret alemão com sua borda arrebitada era muito popular, além de um chapéu similar com as bordas arredondadas. Os sapatos, tanto masculinos quanto femininos, foram usados lisos com uma cinta cortada e presa no peito do pé. A fôrma era arredondada, sendo mais tarde usada em forma quadrada. Os sapatos se tornaram mais estreitos e moldados aos pés posteriormente. Botas também eram utilizadas para, por exemplo, montar a cavalo.

Basicamente, o traje feminino era composto de um vestido longo com mangas usado sobre uma camisa de linho ou jaleco. Na França, na Inglaterra e em Flandres, o vestido medieval de cintura elevada descia até a cintura natural na frente (como na moda espanhola) e em seguida parando até uma linha V. As saias se tornaram mais elaboradas e volumosas e os espartilhos eram severamente utilizados. Existia uma variedade de chapéus, bonés, capuzes, redes e rendilhas de cabeça dependendo de cada região.

Durante a corte Tudor, assistimos a um turbilhão de mudanças e/ou contrastes na moda feminina, próprio pelo caráter cosmopolita que a corte de Henrique VIII se atribuía e muito também pela contribuição de suas esposas. É conhecido que Ana Bolena se vestia à francesa, assim como Catarina de Aragão se vestia à espanhola, tendo ambas influenciado suas cortesãs.

Quanto ao traje francês, este se apresentava com um decote quadrangular,que revelava a camisa por junto à pele, e com mangas justas aos pulsos. O vestido era no molde corpete separado da saia. E como a moda francesa e inglesa estavam em constante diálogo, este vestido logo evoluiu para um traje equipado de espartilho e com a frente da saia exibida com um painel decorado, bordado e com pedras preciosas, preso à anágua. As mangas evoluíram rapidamente para o estilo trompete, apertado no alto braço e solto por baixo.

Quanto aos penteados, a Inglaterra mostrava uma variedade composta por véus e capas que se mostravam mais ou menos estruturados. Era comum o uso de um véu solto que ocultava completamente o cabelo. O capelo, um adorno muito popular, evoluiu na França dos tempos medievais e era constituído de um chapéu arredondado simples, dependurado de forma que mostrava a parte diantera do couro cabeludo, onde os cabelos estava separados no centro e presos ou torcidos sob o véu que acompanhava o capelo. Este tipo evoluiu para uma forma mais refinada, mostrada em meia-lua, que foi adotada por Ana Bolena e que o introduziu na corte inglesa. A corte passa por um contraste de chapéus, sendo adotado tanto o capelo francês de meia lua à medida que Ana Bolena ganhava influência, como sendo adotado o capelo espigão, já tradicional no país, de pontas que vinham até o queixo ou mais abaixo e de forma triangular que escondia toda a superfície capilar.

“Notei, com deleite amargo, a crise do adorno de cabeça que o retorno confiante de Ana tinha provocado. Algumas voltaram a usá-lo ao estilo francês, que Ana continuava a usar. Outras persistiram no capelo em forma de espigão, preferido por Jane. Todas elas estavam aflitas sem saber se deviam estar no belo aposento da rainha ou no outro lado, com os Seymour.”

“Ela pôs de lado o capelo francês, o elegante adorno de cabeça em forma de meia lua que Ana introduzira ao retornar à Inglaterra. Usava o capelo na forma de espigão, como a rainha Catarina, e que há apenas um ano marcava aquela que o usasse como alguém terrivelmente deselegante, fora de moda. O próprio Henrique tinha jurado que odiava a roupa espanhola.”

(Phillipa Gregory – A irmã de Ana Bolena)

É importante ressaltar ainda que havia tipos especiais de tecidos – como o veludo púrpura, só autorizado para o status de Lord e Lady.

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O Felinolósofo

02/21/2010
  • Primeiro registro de fábula no blog. Licença poética incluída.
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O Felinolósofo

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Era um gato metafísico. Não no sentido metafísico da palavra, mas no sentido que elaborava teorias concêntricas metafísicas. Pobre mente devaneia! Passava as manhãs a deambular pelo sol –  até que parava e ia ronronar no leito. Solvitur ambulando? Não, solvitur descansando. Era muito gordo.

Se fosse julgar pela aparência, ver-se-ia ares de burguesia. Muitos tomá-lo-iam por um filósofo do final do século XVIII e poucos duvidariam do fato. Só os preguiçosos, forçosamente por não terem mais o que fazer (e falar), remexem no que já está constatado. O gato era assim, preguiçoso.

Para fins didáticos, digamos que era um liberal conservador. Defendia a não-intervenção do Estado na economia, o que para a realidade doméstica significava o auto-abastecimento de ração. Além de tudo, era elitista. Julgava-se um aristogata quando não passava de um gatuno falido. Daria um bom francês pela capacidade de arrogância (ou talvez majestade) inata dos pensadores franceses.

Não era dotado das carícias explícitas. Ultimamente havia adotado a tendência pós-modernista e se mostrava blasé. Grandes olhos verdes blasé. Era um vanguardista obsoleto. Passara a infância a ler Dostoievsky e passava as tardes a ler sobre a quarta dimensão de Carl Sagan. Nunca admitira as Ilhas Falkland, para ele sempre seriam as santas Malvinas de Darwin. Considerava-se um favorecido pela seleção natural.

Nunca publicou seus tratados. Pensava que teria bastante tempo para fazê-lo na velhice. Eis que um dia bebeu água de um cântaro contendo uma lagartixa morta e foi internado às pressas. Nunca mais veríamos o bichano burguês. Alguns dizem que encontrou a tão sonhada passagem para o âmbito inteligível dos metafísicos (para os práticos, a morte). Os romancistas insistem em dizer que está asilado em Paris. A absoluta verdade é que era o último boêmio (ou romântico), o último felinolósofo nas páginas amareladas das enciclopédias num eterno solvitur descansando.

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Breve história de dois rostos

02/12/2010
  • “Minha vida não foi um romance…
    Nunca tive até hoje um segredo.
    Se me amas, não digas, que morro
    De surpresa… de encanto… de medo…”

    (Mário Quintana – trechos de Canções para uma Valsa Lenta)

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Luz branca inundava através de claras cortinas, o cômodo era pequeno e pastel. Não é sobre o busca do amor, nem por devoção própria ao sentimento: afirmou-se como introspecção. Não a busca, mas o encontro. Puro dizer então  dos pormenores da pele alva, da alma branda e cálida. Não como acaso, dubialmente se acompanha a surpresa ao achar. – É você? Mas nada transcorre assim. Não o rosto mas a emoção.

Esperou-se tanto ao ouvir as canções, os romances.  Os olhos, se um dia foram como dizem, mostram o que espelho reflete. Eis que a superfície fria traça um sorriso encabulado, finas curvas e, o maior. Seria possível? Não seria a farsa de um sonho cruel montando uma vez mais sórdida armadilha? Pois que surge o medo. Um vazio profundo preto.

Movimentos bruscos descompensados – a intenção falha sempre, revela mais um querer impotente. Brande as armas e se camufla, tenta esconder no interior outra vez. No entato os degraus já foram enterrados, não se pode alcançar a antiga torrente tímida da inocência. Os passos levam perto, e mais perto, e mais perto. Pára. Segura a respiração. O outro rosto se vira.

A pira de sensações  queima mesmo inclemente.  Uma aproximação cautelosa decorre, fortemente contra a necessidade do parar. Não desta vez, nem nenhuma outra. Sensatez não pode ordenar na paixão – o outro rosto faz seu próprio caminho. Vence as mãos inseguras da pele alva. – É você? – pergunta. Sorriso encabulado torce a distância, surge delicado, terno. A frangância é doce no ar, o piano toca livre. Se aproxima. –É você?

- Encontrei. – ela diz.

  • Escute a trilha sonora: Chopin, noturno opus 09, nº01 (Youtube)
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O Ballet de Corte

02/06/2010

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Continuamos a falar sobre Renascimento e as mudanças ocasionadas nas artes dos séculos XV e XVI. A evolução da dança também acompanhou o desenvolvimento cultural das cortes da Europa. Terminada a Guerra dos Cem Anos, a França passa por uma restauração do poder central e finanças – ela se encontrava impaciente em evoluir. Mas a renascença francesa passa pela renascença italiana, o que não exclui o processo de coreografia.

Foi na Itália que primeiro se manifestou a formação de uma sociedade cortesã, embora ainda não enrijecida pela etiqueta. Diferente da França, os nobres italianos não exaltavam a cavalaria, mas sim o refinamento do indivíduo por meios paralelos que compreendiam a elegância intelectual e artística. No Quatrocento, a dança metrificada (que seguia ritmos marcados) torna-se uma dança erudita, surgindo os primeiros dançarinos profissionais e mestres de dança. Os primeiros documentos escritos de dança também datam do Quatrocento, contendo a gramática dos movimentos, métrica, comportamento, percurso e aparência, passos fundamentais. Os principais eram os simples e duplos, meia-volta (sem erguer os calcanhares), salto (pouco elevado), battement (batida) dos pés, passo corrido e mudança de pés.

 No Cinquecento a técnica torna-se mais exigente. Já são encontrados conceitos que permeiam até os dias atuais na dança clássica, como o piedi in fuore (en dehors), cabriolas, intrecciata (ancestral do entrechat), fioro (pas de bourré), o pirlotto (pirueta) e groppo (origem do coupé).

Quanto a França pós-Guerra dos Cem Anos, ela volta a ser o reino mais rico e mais populoso da Europa já no final do século XV. Renascendo nas artes, a influência da Itália é absoluta, refletindo mesmo na arquitetura a partir de quando François I confia Fontainebleau a Primatice e Rosso. Mas no plano de pensamento e literatura, a originalidade francesa é absoluta. A partir de François I uma verdadeira vida de corte organiza-se pela primeira vez. Os cortesãos procuram o refinamento do comportamento objetivando elaborar uma arte de viver com elegância. Para esta nova sociedade, a dança, aperfeiçoada pela Itália, torna-se um exercício apaixonante.

As principais danças constituiram-se de: “Baixa dança” (dança de casais), Pas de Brébant (transformação do saltarelo dos italianos), Bransle (mimodramática com ritmos 4/4, 6/4 e 6/8), o Canário, a Chacona, o Passacale, a Pavana (que se torna uma das danças predominantes, com passos escorregadios marcados por paradas curtas), o Pazzo Mezzo (mais vivo que a pavana), a Volta (dança de casais). Mas a dança típica do período é a Galharda, dançada em cinco passos num tempo de 6/4, integrando saltos, grous, coices, rus de vache e cabriolas – uma dança de elevação. A associação pavana-galharda torna-se um repertório.

Mas a dança transforma-se em meio de propaganda, é organizada em espetáculos. Num outro período conturbado de guerras, o ballet é meio privilegiado de propaganda e só após a autoridade real for restabelecida que ele se transformará em afirmação do princípio monárquico em cerimônia de adulação da pessoa do rei.

Quanto à parte técnica, o ballet da corte contava com organizadores como um baile organizado em torno de uma ação dramática. Ele conta com as evoluções geométricas das figuras de espaço, com os dançarinos em figuras como retângulos, losangos e quadrados para serem identificáveis quando vistos do alto. Além disso, o ballet contava com as entrées de temas específicos ou tradicionais – entrées de fúrias, demônios, combatentes – danças livres ou improvisadas que recorriam à mímica e à acrobacia. Os dançarinos eram os cortesãos ou profissionais quando empregados nas partes acrobáticas.

A mitologia forneceu a maior parte dos libretos dos ballets de corte. Conta-se as alegorias e inspirações romanescas, além dos ballets burlescos, que vão das peças fantásticas e surrealistas, das pastorais até o obsceno. Tradicionalmente, o período de carnaval – que começava em janeiro era festejado com muitos ballets, o que explica a inserção de episódios cômicos em ballets romanescos.

Já em 1564 aparece o primeiro ballet de corte com seus elementos constituintes fundamentais, dança, música, poesia, cenário com máquinas, ligado a uma ação dramática. O gênero está definitivamente fixado em suas banalidades e achados: prólogo em homenagem ao rei, entrées em diversos tons (que se inscrevem em uma ação coordenada psicologicamente), uso do canto e da dança misturados, a poesia declamada, o cenário ainda estático.

Alguns links para assistir exemplos no youtube de danças no renascimento: aqui (baile), aqui (pavana), aqui (bransle) e aqui (galharda).

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