
Fábulas de La Fontaine
05/24/2010- Continuação da análise do tempo barroco.
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… des tout temps
Les petits on pâti dos sottises des grands!
Era a apóstrofe que La Fontaine dizia negligentemente à corte francesa, que após ser bem compreendida, ajudou na revolução de 1789.
Jean de La Fontaine nasceu em 1621 em Château-Thierry, na Champagne, e
foi essa terra onde outrora nascera o mais famoso vinho francês que criou seu gênio. Dize-se que, se a sociedade de Versailles o tivesse retido em sua formação, como envolveu Racine e Molière, nunca La Fontaine escreveria senão pastorais. Mas La Fontaine passou distraído pela corte, e a isso dizia, em tons revolucionários:
“- Notre ennemi, c’est notre maitre.
Je vous le dis en bon français.”
Era um gênio independente e pessoal, talvez o único que soube conservar a sua individualidade isenta da literatura versalhesa, sujeita às etiquetas da corte e que tinha por suprema aspiração um sorriso aprovador do senhor supremo, o rei.
La Fontaine era tido como um bonhomine, de vida boêmia e cigana. Apenas conseguia umas férias, corria para as queridas florestas em Château-Thierry, onde observava a selva, o trabalho das formigas, as lebres, o vôo dos rouxinóis, e lembrava-se de tudo o que vira na corte, exclamando: “És perfeitamente um membro do Parlamento, meu rouxinol tagarela! Se julgas que o rei milharfe atende aos teus discursos, estás servido, meu velho!”.
O que mais sobressalta nas fábulas de La Fontaine é que ele não se limitava ao foco objetivo, descrevendo o aspecto dos animais, sob essas máscaras, representou os tipos morais, os caracteres, as qualidades e as índoles dos diferentes indivíduos da sociedade de seu tempo.
Esse era seu encanto como fabulista. Suas histórias não eram originais porque a imensa maioria é encontrada em Esopo e em Phedro, nos fabulários da Idade Média ou nos contos italianos, mas elas falavam de uma linguagem que obedecia às paixões da verdade humana aliada à zoológica. Dize-se que La
Fontaine escreveu a Comédia humana dos animais. O cão, a raposa, o lobo, o leão, o rato, são os Gobseck e os Rastignac, e os Rubempré que reaparecem em cada capítulo desse vasto romance.
O leão de La Fontaine é o Louis XIV da Fábula, que entra também de chicote em punho no Parlamento animalesco e se deixa levar pela raposa cortesã, um Dangeau animal. A formiga avarenta é a burguesa honesta, que cuida da casa, dos filhos e do marido, e que recebe armada a cigarra cigana, artista de vida alegre que não compreende o que a vida tem de sério e de austero, o santo dever do lar e do trabalho.
Quando a raposa aconselha o leão doente a esfolar o lobo e a aquecer o corpo com sua pele, lá está Colbert aconselhando Louis XIV a tirar a pele de Fouquet. É a humanidade disfarçada em grande carnaval.
Tece grande louvor
A cólera de um rei tão justiceiro,
E diz que não há flor,
Que vença do antro o delicado cheiro.
Sua lisonja tola
Teve por prêmio a morte.
Este senhor, a quem não lhe ia à bola,
Não sabia ensinar por outra sorte.
‘stava a raposa perto,
E o leão lhe pergunta em sério tom:
“Com franqueza, este cheiro é mau ou bom?”
Responde o bicho esperto:
“Pronto o vosso desejo aqui cumprira,
Se um defluxo, que tenho, o consentira”.
Os contos são úteis, de ensino são ricos:
Se acaso na corte puderes entrar,
Faz sempre o teu jogo com pau de dois bicos,
Terás a certeza de ali agradar.
(Trechos de “A corte do Leão” – Livro VII)

Em verdade, as fábulas de La Fontaine põem em evidência não só a crítica das obras-primas da literatura, como também a disciplina e o impulso para a renovação das formas estéticas. Elas também tiveram o mesmo destino que as fábulas esópicas e pódricas – entraram nas escolas e serviram de leitura.
No prefácio de sua obra, La Fontaine afirma que não seriam encontradas nem a elegância nem a extrema concisão que tornaram Phedro recomendável – eram qualidades acima de seu alcance. Ele considerava que, sendo as fábulas conhecidas por todos, ele nada faria se não trouxesse algo de novo que revelasse traços de bom gosto. Era o que, segundo ele, se desejava na época: novidade e alegria.
Ele vai além, diz que antes de sermos levados a corrigir nossos hábitos, é preciso trabalhar para torná-los bons enquanto somos ainda indiferentes ao bem ou ao mal. E ali estava o caráter civilizatório de sua obra, suas fábulas seriam um método mais do que recomendável e foram todas dedicadas ao Monsenhor Delfim.
Ele diz ainda, nesse prefácio, que as propriedades dos animais e de seus diversos caracteres ali estavam expressos e por consequinte, os nossos também – pois éramos o resumo do bem e do mau nas criaturas irracionais. “Assim essas fábulas são um quadro onde cada um de nós é pintado”.
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