Posts de junho \27\UTC 2010

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Perda

06/27/2010

Meus gigantes nasceram sem olhos, brancos, rebentos.  São cegos, como uma caverna obtusa,  noiva da morte. Arranha e meldra as pedras, de oito maneiras irritantes. Como minha víbora ululante que assim, ríspida, abocanha meus pequenos ratos de medo.

Simbila num véu marcado de velha sinfonia – nosso coração é feito de caridade vazia. No escuro, seus dentes fechar-se-ão, assim, de repente. Em você. Mas que caída trágica! Minha cilada sinistra tem dentes roxos, pútridos. Ali, bem ao seu lado, há um muro que eu não consigo pular. Se minha sereia se esconde na lama, meus gigantes, onde estarão?

A cicatriz traz sempre à luz a mácula, as mãos sujas de sangue. O rosto demente apenas cansa de sofrer – é um suspiro que conduz as misérias de meu mundo. Quando o calafrio abandona a criança, pobre lembrança. Seus pés já estão frios debaixo do chão. Silêncio, estranho. Baba Yaga já vem te buscar também.

Na pia fria a cabeça do morto me sorri. É verde e o vingador me estrangula com uma fita vermelha. Perdão, marido. Prometo encontrar meus gigantes que se escondem no infinito. O resto está nas profundezas do abismo, eu não consigo achar.

Perdão, querido.

  • Escute a trilha sonora: Gas Giants, Tears for Fears (Youtube).
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Pintura Barroca e Classicista

06/20/2010

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A partir dos debates teóricos do século XVI, o artista é transformado em intelectual, originando o fenômeno acadêmico, cujo objetivo era a formação de novos pintores, escultores e arquitetos a partir das premissas de grandes mestres. É assim que surge a idéia de organização acadêmica na segunda metade do século XVI, quando imperava a estética maneirista, na qual a arte se fundamentava sob dogmas descobertos no passado por artistas divinos e passíveis de transmissão aos artistas do presente.

No modelo acadêmico a formação do artista responde a objetivos precisos, inclusive de propaganda a serviço do Estado, como aconteceu com os artistas da Academia de Pintura e Escultura de Paris fundada em 1648. Os artistas franceses deveriam aprender a maneira dos antigos. Essas influências na arte do século XVII podem ser percebidas em elementos como a proporção, uma das fundamentais,e  na representação de gestos e atitudes. A própria natureza deveria ser vista a partir dos exemplos dos gregos e romanos e era por isso que a viagem a Roma era parte integrante da formação do artista.

O classicismo do século XVII opõe-se ao seu par complementar, o barroco, e aos resquícios maneiristas. Combate a chamada “pintura de maneira”, isto é, a pintura pela pintura, sem relações com a natureza, mas critica o naturalismo representado por Caravaggio, submisso à natureza, incapaz de seleção e idealização. Esse “erro” seria sanado pela observação da arte antiga, natural, mas não naturalista, penetrada pela ideia, purificada pela expressão artística. A tarefa da estética classicista do século XVII era afirmar que arte possuía a natureza como substrato, como material a ser sublimado.

A pintura francesa do século XVII, diferente da pintura italiana, não rompe totalmente com as posições maneirísticas derivadas de Fontainebleau. Ainda se inspiravam no decorativismo e naturalismo mesmo depois de haverem rumado para Roma e terem travado contato com a Antiquidade Clássica. Valentin é pintor da realidade. Simon Vouet pratica o realismo burguês, exaltando os valores da pintura veneziana. Os irmãos Le Nain por muito tempo encaminham a pintura francesa em sentido realístico, pondo em destaque a evidência moral do viver, a simplicidade das figuras, a interioridade pacata, a exaltação da gente humilde.

Georges de La Tour modela suas formas pela luz, lhe permitindo a expressão do divino no humano, no misticismo. Ele utiliza a compactação geométrica das formas e a simplificação dos planos, a luz quente (influência flamenga) e a legibilidade dos fatos narrados, que faz com que entre nas exigências da contra-reforma. O bloqueio dos gestos e das atitudes é antibarroco, mas o acento da espetacularidade que induz o observador a participar do drama é traço dominante da época.

Mas é Nicolas Poussin o mais alto expoente do classicismo francês do século XVII. Era o exemplo a ser seguido, pois ensinava fazer do estudo em Roma, do contato com as estátuas antigas e com os mestres do Renascimento o ponto de partida para uma pintura sóbria e geometricamente determinada, voltada para a exaltação das ações heróicas e destituída de detalhes inúteis e triviais. “A pintura nada mais é do que ideias das formas vivas” – dizia ele. A luz era abstrata e pensada na ordenação das coisas no conjunto. O seu ambiente nunca é natural, a natureza é uma contemplação com acentos dramáticos ou luminosidades festivas. Sua obra já constituía a antecipação da natureza como estado de alma.

Já Charles Le Brun assume posição barroca pelo fato de dar evidência aos conteúdos, de apresentar os fatos de formas espetaculares e imprimir ares grandiosos à decoração. Não é por acaso que Loius XIV lhe nomeia primeiro pintor do rei. Le Brun consegue conciliar as delicadezas intelectuais dos franceses às contribuições flamengas e aos comportamentos clássicos sugeridos pela Academia. A decoração dos salões de Versailles, desde a escolha dos mármores até os espelhos das galerias é obra sua, formando uma diretriz única que define o “grande gosto Louis XIV”.

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Moda Barroca – Parte 2

06/13/2010

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O período posterior ao puritanismo é marcado por rápidas mudanças, seguindo a restauração de Charles II na Inglaterra e a ascensão de Louis XIV na França. Se no momento anterior havia sido buscada uma suavização da rigidez do período elizabethiano, este é visto como uma transição total para livre expressão na moda. Fitas, bordados, babados e plumas envoltas em uma elegância inteligente. A silhueta é marcada pela cintura baixa, e como dito anteriormente, pelo uso de perucas como característica do traje masculino. Na cortem usava-se principalmente vermelho, azul, amarelo e verde em cetim ou veludo.

O traje masculino era marcado pela peruca, em grandes cachos que caíam até os ombros. O rosto era completamente barbeado, deixando-se apenas uma linha de bigode se assim fosse escolhido. No pescoço, o colarinho foi substituído por um lenço (jabot). As bermudas sofreram grande expansão horizontal (dando a impressão de uma saia), caindo até os joelhos e terminando em babados, fitas ou laços (cannon) – as botas foram substituídas por sapatos de baixo salto. As camisas possuíam mangas compridas e com babado, que era deixado à mostra. O traje também era marcado pelo casaco, que poderia ser alongado até o joelho ou marcado na cintura baixa por um cinto. Sob o casaco, utilizava-se um colete, que poderia ser do mesmo comprimento ou permanecer acima do joelho. Esse conjunto deixava muito pouco da bermuda visível. Na parte inferior, além das bermudas, eram utilizadas meias de cores variadas para a impressão de pernas mais longas. O traje masculino ainda envolvia o baldric, uma espécie de faixa que atravessava o corpo de um ombro até a cintura para segurar a espada e mostrar status, sendo substituída pelo cinto de espada em 1680.

O traje feminino é marcado pela cintura baixa, a expansão no volume dos ombros e pelas mangas que terminavam abaixo do cotovelo. O decote foi baixado, deixando os ombros expostos.

O cabelo caía graciosamente em cachos até o ombro, sendo repartidos até o meio até 1690, quando linhas de cachos eram empilhadas sobre a testa. Essa tendência do final do século XVII envolvia o fontage, uma espécie de chapéu com babados de rendas verticais ao lado do cabelo. O período começa com uma peça única de cor uniforme na saia ou por uma sobressaia repartida, que mostrava uma anágua ricamente bordada. A partir de 1680, entrou em moda o manteau, que não possuía um corpete e uma saia separada, mas constituía-se de uma peça que vinha dos ombros até o chão, fechando o decote dos ombros mantido anteriormente, e mantendo uma sobressaia recolhida da parte frontal por laços e fitas, que eram agrupados nas costas por sobre uma anágua de tafetá. O manteau era feito de um único comprimento que mostrava a posição social da dama, e a saia que se mantinha por baixo mostrava novos efeitos de tecido que substituíram as cores saturadas em cetim da metade do século.

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Moda Barroca – Parte 1

06/04/2010
  • O período é dividido em duas grandes tendências. Retrato aqui o período de 1600-1650. Aguardem pelo 1650-1700.
    Veja mais em Barroco e Arquitetura.

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O vestuário barroco é profundamente documentado, o que nos expõe uma variedade de tramas e estilos. Oriundo de uma disseminação em poucas décadas, o estilo acompanhava a cultura comerciante burguesa e calvinista, onde Deus manifestava sua graça no sucesso econômico. Não era mais, pois, apenas reis e príncipes que encomendavam seus retratos a grandes artistas, aqueles que financiavam a arte eram também aqueles que viam valor no ganho da sua riqueza.

Essa mentalidade influenciou também no temário das obras artísticas, não mais apenas deuses, reis ou santos, mas também os retratos de influentes famílias e cenas da vida social, focando na sobriedade eficiente e na modéstia devota. O protestantismo emerge para a brevidade da vida – os contrastes entre a luz e a sombra na obra barroca evocam a morbidade da arte em um conjunto onde morte e nascimento dançam juntos.

Quanto às vestimentas, a tendência se caracteriza pelo desaparecimento do colarinho bufante (ruff), da elevação da cintura feminina e masculina, mangas cheias e cores escuras, como reflexo de uma atitude voltada para a melancolia dos artistas, aparência desgrenhada, poses e expressões tristes.

O vestuário masculino era caracterizado extravagantemente, com muitos chapéus de abas largas e plumas. Os cabelos eram deixados até o ombro, deixando-se grandes cachos a partir dos 1630 até 1640, culminando no uso de perucas na década de 1660. O traje masculino gradualmente abandona as mangueiras (tipo de meia-calça) e adota as bermudas, caracterizando-se também pelos punhos marcados e pelos colarinhos mais soltos, caindo em rendas. O comprimento das botas ia até o joelho, acompanhadas de meias que terminavam em granes laços e rendas. No começo do século XVII, homens e mulheres elegantes podiam optar pelo uso de sapatos com um pequeno salto, com um tipo de laço ou enfeite colocado sob o peito do pé.

Quanto ao traje feminino, este era sobrepujado pelo masculino. Os cabelos das damas eram usados com uma armação para cima, tendo abaixado lentamente com a progressão do barroco, como veremos posteriormente. A roupa constituía-se da camisa de linho, do corpete, decorado com um painel que se estendia desde o decote até a cintura, do manto, da saia e sobressaia. Eram utilizadas até oito anáguas, sustentadas no farthingale.  Os pulsos eram utilizados em combinação com o colarinho, se manteve rígido (ruff) por muito tempo na Espanha e na Holanda, sendo utilizado mais livremente e com mais caimento em outros países.

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