
Usos de Civilidade
09/23/2010- [UPDATE - imagens acrescentadas ao post Moda Barroca - Parte 2]
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O longo movimento de transformação dos comportamentos que se insere nos séculos XVI e XVII se orienta num sentido de socialização das condutas, em geral, em termos de submissão imposta às pessoas. As civilidades visavam criar entre os homens as condições de um relacionamento agradável e de acordo com as normas da religião. Tratava-se da desintegração no indivíduo daquilo que era mostrável (civil, e portanto, bom) daquilo que todos – e ele também – deveriam ignorar. O espaço individual via-se invadido pelo coletivo e pelo silêncio das proibições, no qual brilhava o triunfo da aparência.
Os pontos de aplicação da civilidade são por excelência os espaços em que se realizam o ritual social. O comportamento à mesa, por exemplo, requeria a moderação, a decência e o respeito aos comensais, expressa em uma minuciosa montagem de gestos e de postura. Mas é sobre o corpo que as normas de civilidade se exercem com maior rigor, uma vez que era necessário “esquecer o corpo” para que se respeitasse a presença divina. A vestimenta obedecia a uma norma religiosa e moral e a nudez associava-se ao pecado original. Assim, quando se estava deitado, não se deixava que as cobertas sugerissem a forma do corpo e ao sair da cama, não se deveria deixá-la descoberta nem “colocar a touca de dormir em algum assento ou outro lugar onde se possa vê-la”.
Além dos teóricos Erasmo e Courtin, que defendiam a ideia de que não existia intimidade suscetível de escapar do olhar de Deus, La Salle torna a vigilância tão estreita que acaba proibindo toda relação imediata consigo mesmo. “O decoro exige também que, ao deitar-nos, escondamos de nós mesmos o próprio corpo e evitemos lançar-lhes até os menores olhares”. Às vésperas do Iluminismo toda uma rede de práticas corporais cai numa clandestinidade vergonhosa. As funções corporais logo são subtraídas do campo de civilidade.
Entretanto, enquanto todas as expressões de espontaneidade afetiva estavam sob vigilância, algumas eram toleradas por normas coletivas. Ao longo de todo o século XVIII, chorar – no teatro, na leitura conjunta – continuava a ser uma atividade sociável. Tratava-se de uma das formas das elites de mostrar os privilégios sensíveis que as uniam.
A limpeza, por sua vez, dispensava a água enquanto agente perigoso, suscetível a penetrar por toda parte, com exceção das partes expostas, ou seja, mãos e rosto. A toalete deveria ser seca, friccionar-se e perfumar-se. A água só torna-se um requesito nas décadas de 1740-1750, mas insere-se no savoir-vivre, na melhor utilização dos recursos orgânicos, e torna-se, através do enfoque da medicina, em dispositivo de controle coletivo dos comportamentos. A roupa branca revelava em público a limpeza da pessoa – exibia ao mesmo tempo em que escondia a superfície do corpo.
Dentro dessa lógica, os manuais do savoir-vivre se mostravam empenhados em respeitar o status social, como no caso das Règles de La bienséance et de La civilité chrétienne, que enfatizavam o reconhecimento das diferenças sociais e dos gestos que devem expressá-los. Nessa época funda-se toda uma nova literatura cortesã, começando com O cortesão de Castiglione, que se constitui durante dois séculos a gramática funcional da sociedade cortesã. O verdadeiro gentil-homem demonstraria seu mérito, ao contrário, proibindo-se de tudo que pudesse revelar aos outros que ele guarda vestígios de um esforço. A “graça” viria na forma em como “usa em todas as coisas certo desdém”, que oculta o artificial e mostra o que se faz como se viesse sem esforço e sem pensar. O modelo cortesão opõe-se à civilidade imposta pelos outros autores. Ele seria capaz de agradar pela quantidade e pela eminência de seus talentos (na conversação, nas armas, na dança, no jogo, mas também nas atitudes cotidianas). Tudo que lembrasse tensão e esforço deveria ser sufocado numa “dissimulação honesta”.
Esse modelo é adotado principalmente a partir das décadas de 1620-1630, nas quais em oposição à corte do rei, criticada por sua rudeza, sua ostentação e seus excessos, uma sociabilidade restrita e policiada se define nas elites fechadas que se reúnem em algumas das grandes casas nobres. A corte era um espaço público, fortemente hierarquizado e regulamentado sob a autoridade cada vez maior do soberano e nessas grandes casas abrigavam-se uma elite que se reconhecia. Não se tratava de ostentação e gestos comandados pela civilidade, as pessoas escreviam, conversavam e através disso realizavam uma construção coletiva do gosto. (Leiam o post Cabinet des Fées)
No entanto, esse modelo não produz grandes avanços. Na segunda metade do século XVII, ele é suplantado pela sociabilidade regulamentada que se impõe à corte de Luís XIV. É na repressão dos excessos e na instituição de uma norma civil que se encontrava o meio de conter os exageros, de ridicularizar as pretensões nobiliárquicas às excepcionalidades morais e políticas, de neutralizar as solidariedades particulares. Do topo à base, a ordem determinava os comportamentos segundo a posição de cada indivíduo numa hierarquia rigorosa, e a etiqueta regulamentava no detalhe essa disciplina inigualitária porém igualmente imposta a todos.

A corte fazia de sua aparência sua regra social. O respeito à etiqueta, à vestimenta, à palavra, à apresentação do corpo obedeciam a essa mesma regra de reconhecimento coletivo. O perfume, o pó, a peruca produziam um corpo enfim conforme às expectativas do olhar social. A dança talvez fosse a técnica corporal que melhor exprimisse essa exteriorização absoluta dos comportamentos. Codificando uma retórica dos gestos, essa arte social por excelência visava a fazer o século XVII esquecer a existência de um corpo próprio para impor uma auto-representação que satisfaça às normas do grupo. O sucesso social cava vez mais se identificava com o acesso às graças do rei.



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