
Escola Clássica: apoteose e morte
12/06/2010- Acompanha os posts sobre história da dança: A Dança Clássica e O ballet de corte;
- Relaciona-se também com o post: Usos de civilidade
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Acompanha-se no século XVII grandes mudanças nos planos de se pensar e viver. As novas ideias, as “luzes” apresentam uma nova abordagem para o plano político-social dos países e são amplamente difundidas nos salões. O público de cultura aumenta: magistrados, pequenos burgueses, baixo-clero leem, discutem em locais sucessores dos salões, os cafés. Até as pessoas d povo são atingidas por essa onda literária, alcançadas pelos vendedores ambulantes.
Tratava-se de um novo humanismo, o da “doçura de viver”, savoir-vivre, na qual o homem-indivíduo é considerado como essencial. As artes mostravam como a moda era ser feliz: não mais apareceriam histórias moralizantes ou heróicas, mas obras marcadas pelo rosto humano. É a época dos retratos individualizados de Quentin de La Tour, das cenas intimistas de Chardin, da pintura sensível de Greuze.
Em uma evolução essencialmente parelela, a dança conservará o formalismo da escola clássica no começo do século e seguirá rumo ao realismo dos assuntos e à sensibilidade propostos por Noverre.
O aperfeiçoamento da técnica é impulsionado por vários fatores. Dentre eles, estão a fundação de uma escola da Academia Real de Dança na França, solidamente fundada sob o peso da tradição; a anotação dos movimentos, tanto por Feuillet como por Rameau, uniformizando e facilitando o ensino da dança,possibilitando o desabrochar do virtuosismo. Em suma, a técnica acadêmica permitiu o enriquecimento da herança clássica.

A primeira reação contra a dança puramente formal foi formulada por Luís Cahusac em sua pbra La Danse ancienne et moderne ou Traité historique de La danse de 1754. A reforma do ballet, com o objetivo de dotá-lo de ação foi primeiramente realizada por Franz Hiferding, realizando ballets onde os burlescos tradicionais são substituídos por camponeses, carvoeiros, profissionais diversos que fazem mímicas de suas profissões. Tratava-se, todavia, apenas de gestos sem ligação, não era o ballet “de ação” mas de “ações”.
É com Jean-Georges Noverre que a noção de ballet de ação é passada num corpo doutrinário claro, diretamente assimilável pelos bailarinos, examinando os meios técnicos para a reforma da dança. Criador de 150 ballets, suas lettres foram amplamente difundidas e fizeram do ballet um gênero artístico completo.
Dois princípios norteavam a doutrina de Noverre: o ballet de ação, ou seja, o ballet que narra uma ação dramática sem se utilizar de divertimentos (divertiments); e a “pantomina”, a dança natural e expressiva. Suas críticas endereçavam-se às máscaras: “Sempre considerei as máscaras de madeira ou de cera como um invólucro espesso e grosseiro que abafa os afetos da alma…” “O rosto é o órgão da cena muda, é o intérprete fiel de todos os movimentos da pantomina”, e se endereçavam também aos trajes: “o camponês, o marinheiro, o herói estão sempre sobrecarregados; quanto mais um traje é ornado de bugigangas, lantejoulas, filó e rendas, mais adquire mérito diante do autor e do espectador sem gosto…Diminuiria em três quartos as crenolinas ridículas de nossas dançarinas; impedem também a liberdade, a rapidez e ação pronta e animada da dança…Diminuem a graça dos braços, na verdade, enterram a graciosidade…” e se endereçavam também à técnica, à virtuosidade sem significado, ideias ou expressões: “As danças representadas que nada dizem, que não apresentam qualquer assunto, que não tem qualquer caráter, que não esboçam uma intriga pensada e com sequencia e que caem, por assim dizer, das nuvens, são apenas, a meu ver… simples divertimentos de dança, que mostram apenas os movimentos compassados das dificuldades mecânicas da arte. Mais do que isso, Noverre ainda opinava sobre a formação do bailarino – reivindicava uma cultura geral bem mais vasta, com estudos mais detalhados de poesia, história, pintura e geometria, estudos sólidos em música e anatomia.
A composição dos ballets também era de extrema importância para Noverre: “Gostaria ainda que os passos fossem executados com tanto espírito quanto arte e que respondessem à ação e aos movimentos da alma do bailarino…Quanto às posições, todos sabem que há cinco…Direi simplesmente que é bom saber estas posições e melhor ainda é esquecê-las…De resto, todas as posições em que o corpo se firma e se desenha bem são excelentes.” “O ballet bem composto deve ser uma pintura viva das paixões, dos costumes, dos usos e das cerimônias de todos os povos da Terra… Deve principalmente não se limitar a uma execução mecânica”.
O método de Noverre, apesar de novo e entusiasta, é legado aos coreórgafos/maîtres Jean Dauberval e aos do clã Gardel. Um dos ballets que seguiram a herança de Noverre, e por isso chamados noverrianos, é a famosa pastoral cômica de Dauberval, La Fille mal gardée, cujas reprises completamente fantasistas são representadas até hoje.


