- Veja mais em: A Dança Clássica, Fábulas de La Fontaine e Moda Barroca – Parte 2.
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O classicismo é uma escola resultante de determinantes históricos, políticos e sociais que ganhou feição específica dentro de cada país onde se manifestou. O classicismo francês foi o que codificou os procedimentos estéticos que lhe conferiram especificidade e determinação. Contrariamente ao senso comum, o classicismo não se baseia completamente nas teorias dos antigos clássicos, mas os tempos modernos incluíam sua marca, fazendo emergir uma literatura própria. Elementos buscados e preservados eram: a verossimilhança, a proporcionalidade, a contenção dos extravasamentos pessoais e emocionais e o caráter sereno das manifestações estéticas.
Foi na França do século XVII que o classicismo adquiriu fundamentos verdadeiros de uma escola. Erich Auerbach, filólogo alemão, diz na sua Introdução aos Estudos Literários que o absolutismo consolidado na França ante a debilidade de seus vizinhos proporcionou sua hegemonia na Europa, em uma supremacia de civilização, língua e literatura. Há estudos que
apresentam as origens do classicismo francês atreladas, antiteticamente (e ironicamente) ao “preciosismo barroco” da França, introduzido pelo universo místico espanhol e italiano. O classicismo coloca-se contra as invenções lexicais e o vocabulário precioso, em uma concepção de “limpeza” da língua francesa.
Boileau, Corneille, Racine, Molière e mesmo La Fontaine constituíram os clássicos mais representativos dentro do paradigma francês, que funcionava no rigor, criatividade dentro das normas estabelecidas e produção representativa. As suas obras eram caracterizadas por um novo senso de dignidade de linguagem, pelo poder contido da imaginação e pela habilidade intelectual de renovar o lugar comum e ordinário. É essa tensão entre forma e criatividade que persiste na expressão de valores universais acima dos particulares. Opõem-se ao barroco na hiperbolização dos conflitos e na exuberância da linguagem, porém.
Jean-Baptiste Molière era fruto da atmosfera do século XVII. A comédia, nas décadas anteriores ao aparecimento de Molière, era um gênero médio, situada entre a grandeza trágica e a zombaria farsesca. Definia-se pelo objetivo de provocar o riso pelos personagens de condição social baixa ou média, ambiente doméstico, assuntos corriqueiros e desfecho obrigatoriamente feliz. Devia ser escrita em versos, ter cinco atos, respeitar as conveniências, preocupar-se com a verossimilhança e obedecer às unidades de tempo e lugar.
Molière dirige durante quinze anos (1643-1673) um grupo de atores ambulantes. A partir de 1659, instalado em Paris e protegido por Luís XIV, representa para o divertimento da Corte e do público parisiense numerosas comédias. Ator, diretor de companhias, criou verdadeiramente a mise-en-scène e dirigiu a atuação dos atores com precisão. Suas obras-primas são as peças em que, combatendo um vício ou extravagância, constrói personagens que se tornam tipos eternos. A lição de moral que se tira do seu teatro é uma recomendação ao homem para que nunca ultrapasse a medida e permaneça nos limites do bom senso.
Sua primeira obra-prima é L’École des Femmes (1662). Nessa peça, o ridículo Arnolphe, temendo casar-se com uma mulher que possa traí-lo, isola desde criança a ingênua Agnès e a cria longe da sociedade, preparando-a para ser uma esposa inteiramente fiel, já que seria ignorante a todos os pecados do mundo. Mas a natureza humana se revela mais forte: a moça se apaixona por um jovem de sua idade e, ardilosamente, engana o velho tirânico como em uma boa farsa. A importância de L’École des Femmes está no fato de inaugurar o conjunto de grandes comédias do autor, escritas em cinco atos, mantendo o objetivo de provocar o riso, mas evidenciando os costumes e a análise dos caracteres.
A partir daí, o recurso do baixo cômico aparece apenas ocasionalmente, uma vez que o riso é provocado pela ridicularização dos personagens. É o caso de Le Tartuffe, comédia escrita segundo as regras de unidade. Às qualidades da forma, capazes de satisfazer os juízes teóricos, justapunha-se o conteúdo polêmico, que atacou os integrantes da Igreja que se julgaram atacados
na figura do protagonista. A personagem central da comédia é um hipócrita, falso devoto, que se aproveita da ingenuidade de Orgon, um chefe de família burguês, para instalar-se em sua casa e enganá-lo com um comportamento calculadamente humilde, desprendido e abnegado. Nos dois primeiros atos, Tartuffe não aparece, são os outros personagens que falam dele, divididos em dois grupos: de um lado Orgon e sua mãe, que o defendem; de outro lado, o restante da família que o vê enquanto hipócrita. Como o primeiro grupo contém os personagens mais cômicos, o público é levado a acreditar no segundo. Assim, quando Tartuffe aparece no começo do terceiro ato, o público está preparado para que o velhaco não o engane. Com Le Tartuffe o enredo torna-se mais complexo, com situações que envolvem várias personagens ao mesmo tempo. O espaço cênico não é mais a praça pública, mas o interior de um lar burguês, evocado pela caricatura em tipos como Orgon, sua mãe e a criada Dorine, e por realismo sincero, com Cléante, Elmire, Mariane e Damis. O resultado é uma peça que funciona como diversão e desmascaramento de um vício social. Molière realiza em plenitude a síntese horaciana de unir o útil ao agradável.
Em Don Juan, Molière utiliza-se do modelo oferecido pela peça de Tirso de Molina, El Burlador de Sevilla y convidado de piedra, aproveitando-se do fato de que o público francês já conhecia algumas versões italianas e francesas do mito espanhol. Don Juan é caracterizado como um grand seigneur que olha a humanidade com desdém, um sedutor libertino que despeita os princípios morais, um ateu orgulhoso que desafia Deus e, no último ato, um falso devoto, um hipócrita que mente para o próprio pai. Don Juan é um personagem que entra na esteira de Tartuffe. Libertino e hipócrita, misturam-se nele o arquétipo do burlador espanhol e o modelo de libertinagem à francesa que triunfa entre as pessoas que vivem em torno do jovem rei.
Em Le Misanthrope, numa inversão irônica extraordinária, o perso
nagem central é ridicularizado não porque tenha defeitos morais, mas porque ao contrário, é exageradamente sincero e honesto. A comicidade de Alceste nasce de sua rigidez de caráter, da sua enorme falta de maleabilidade para viver em uma sociedade em que reinam a mentira, a maledicência, a hipocrisia e a desonestidade. O resultado não é só a construção de um personagem rico, mas uma gradual substituição dos aspectos cômicos pelos aspectos patéticos, por força do sincero sofrimento do misantropo, decepcionado com os homens e infeliz no amor, porque apaixonado pela coquete Celimène. Comédia que assemelha ao drama, Le Misanthrope conquistou a admiração dos letrados, uma vez que realizava os ideais de alta comédia clássica construindo um personagem que encarnava um traço essencial da natureza humana.
Molière escreveu apenas mais duas comédias de caráter: L’Avare (1668) e Les Femmes savantes (1672). O restante de sua produção compõem-se basicamente de farsas, comédias de intriga e comédias-balés, tais como Georges Dandin, Les Fourberies de Scapin, Le Bourgeois Gentilhomme. À doutrina clássica ele deve pouco, pois jamais deixou de se valer de recursos cômicos que remontam à tradição da comédia latina, farsa medieval, comédia espanhola e à commedia dell’arte. Os letrados lhe atribuíram “o mérito de ter criado uma comédia regular verossímel e que só levou em conta as peças escritas de acordo com a regra, tornando-o de algum modo o melhor representante da grande comédia”, coisa que Molière jamais fez.

Jean Racine estreou num momento em que não mais se discutia a primazia e a excelência da forma clássica. Como nenhum outro, ele soube adaptar-se às exigências da poética rigorosa de seu século, aceitando-a sem qualquer contestação e demonstrando que as regras não impediam a realização plena da imaginação e da poesia.
A primeira grande peça de Racine, com a qual se pode dizer que nasce uma tragédia raciniana, é Andromaque (1667). Nela já se encontram alguns elementos essenciais de seu sistema dramático, tais como a simplicidade da ação, apanhada já próxima ao desenlace – os personagens vivendo sob a pressão de um dilema e movidos em suas decisões pelos impulsos interiores, a violência da paixão, sempre devastadora e fatal, e as unidades de tempo e lugar postas a serviço da intensidade dramática. A ação se situa numa sala do palácio de Pyrrhus, rei do Epiro e vencedor da guerra de Tróia. Em seu poder encontra-se a viúva de Heitor, Andromaque, por quem nutre uma paixão avassaladora não correspondida. À altivez da heroína, ele responde com amor e furor, não hesitando em chantageá-la com a ameaça de entregar o filho Astianax aos gregos. Racine explica em seu prefácio que seguiu as lições de Aristóteles para construir seu personagem, cujas desgraças devem provocar a piedade porque não é nem inteiramente bom nem inteiramente mau. A “falha” de Pyrrhus é a paixão por Andromaque, que o leva a sacrificar a aliança política com os gregos, negando-lhes Astianax, e abandonando a noiva Hermione. Hermione, que o amava, arma o braço de Oreste, que a amava, contra Pyrrhus. Depois se desespera e suicida-se. Racine explora ao máximo as tensões originadas pelo estado emocional dos personagens e organiza uma trama com base nos desequilíbrios provocados pela força da paixão.

No prefácio de Britannicus, Racine vale-se de suas opiniões estéticas para definir a tragédia como “uma ação simples, com pouca matérias, tal como deve ser uma ação que se passa em único dia e que, avançando gradualmente até o fim, sustenta-se apenas pelos interesses, sentimentos e paixões dos personagens”.
Vista por esse ângulo, a tragédia raciniana mais perfeita é Bérénice. Não hámortes nem paixões ensandecidas ou desejos brutais, como nas peças antecedentes, mas um sentimento de outra natureza, um amor intenso, de colorido elegíaco, que se exprime nos alexandrinos carregados de pura poesia. Titus, nomeado imperador de Roma, vê-se impedido de casar-se com Bérénice, rainha da Judéia , uma vez que os romanos não aceitariam uma estrangeira em seu trono. Racine não fez mais que seguir a lição de Aristóteles, pondo em cena a passagem da felicidade para a infelicidade. O fato trágico está no sacrifício do amor, na separação forçados das duas pessoas que se amam, na dor que quase os leva à morte. Há ainda um terceiro personagem que se envolve nas questões amorosas: Antiochus, apaixonado por Bérénice e amigo fiel de Titus, e não é poupado do sofrimento da renúncia e da resignação. É em torno desses três personagens e dos obstáculos que enfrentam que se alimentam os cinco atosda peça, numa ação simples, linear e de extrema concisão.

Em Iphigénie en Aulide, o autor poderia ter se aproveitado tanto da versão do mito em que Agamennon sacrifica a filha, derramando seu sangue no altar de Artémis, para que soprem os ventos na direção de Tróia, quanto a versão que está presente na tragédia de Eurípedes, na qual a deusa intervém e salva Iphigénie, substituindo-a por uma corça. Mas Racine não aceitou nem o sacrifício humano nem a intervenção do maravilhoso. Explicou, no prefácio, que não quis sujar a cena com a morte horrível de uma personagem virtuosa e descartou a solução de Eurípedes porque ela seria considerada absurda pelos espectadores de seu tempo. Daí a invenção da sombria e má Ériphile, personagem movida pela paixão e ciúme, que provoca a própria desgraça ao se empenhar pelo sacrifício da rival Iphigénie, prometida a Achille. Se por um lado Racine evitou que uma deusa descesse dos céus, por outro aceitou que a morte de Ériphile faria os ventos soprarem, conforme o relato de Ulysse.
Em Phèdre, o autor não apresenta hesitações e mostra o mundo da Grécia mitológica em toda a sua plenitude. A personagem é vítima da cólera divina e sua paixão por Hippolyte é muito mais uma punição dos deuses do que uma ação de sua própria vontade. Phèdre não é apenas uma
personagem mitológica que sucumbe à fatalidade divina, mas o ser humano que carrega dentro de si as sementes de sua própria condenação. Em Phèdre, Racine mostra sua habilidade como poeta dramático. A ação está próxima do desenlace, com a protagonista no auge de seu desespero. Phèdre é a personagem trágica por excelência, pois não sendo inteiramente culpada nem inteiramente inocente, desperta no espectador os sentimentos de compaixão e terror.
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